Interlúdio

novembro 5, 2013

Como vocês podem observar, este blog continua agonizando (agoniza mas não morre, o filhodaputa). E uma vez que os atuais níveis de motivação não são suficientes para me dissuadir de empregar o tempo útil de que disponho em algo mais proveitoso, tipo fazer um carinho mimoso nos meus pokemons, continuarei mantendo o blog em animação suspensa (pelo tempo necessário).

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Porém, diante da recente derrocada da Tarja Editoral mediante as baterias antiaéreas do maligno e impiedoso mercado (y otras cositas más you should check it out), me toquei que deveria deixar registrado aqui que o Metal contra os mortos (meu romance pronto desde fins de 2011 e que eu – ingênuo – anunciei a publicação num longínquo post de julho de 2012) está no limbo dos entre-lugares de romances sem destino (parece mais, er, romântico do que é).

Com calma e sem estardalhaço (lembre-se: motivação < carinho nos pokemons) pretendo começar a procurar alternativas. E alternativas às alternativas. Mas por enquanto só quero manter meus pokemons aquecidos neste longo inverno da alma (e RIP Tarja).

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Já que estou atualizando essa bosta, pelo menos faço algo útil.

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Fiquem ligados no facebook da Tarja. Está rolando a promoção pra acabar com todas as promoções (o que não é exatamente figura de linguagem, no caso).

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Enquanto isso, A Draco anunciou a publicação da antologia Super Heróis, com meu conto caça-níquel (q é um spin off do Nerdquest, aquele meu livro que ninguém leu). Tem um link aqui com uma entrevista comigo (e eu não sei como nem por que the fuck, mas o texto tá com umas vírgulas muito esquizóides, relevem – pode ser culpa da cerveja). Rola uma amostra da ilustra do Angelo de Capua, com um estilo beeeeem realista – o que, dada a atmosfera escrachada do conto, acaba ficando ainda mais engraçado como paródia do gênero super-heroístico.

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Abaixo, o Pedro Éboli fez sua própria fan art de um dos personagens coadjuvantes – o Terror Terrier (cujo poder é conjurar hordas de terriers selvagens). Sim, sei que vocês querem, vocês anseiam, então tá bom, porra. Vou escrever um spin off do Terror Terrier pra postar aqui quando rolar a publicação da antologia.

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“Esta aqui é uma arma não letal. Não me force a aplicar os yorkshires”

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Ainda sobre coisas que publico, e novamente pela Draco, tenho o conto (ou noveleta, whatever) O cortiço e as estrelas na antologia Space Opera III. Sim, é um mash up, o clássico do Aluísio Azevedo revisitado em ambientação space opera. Tem texto original misturado com texto meu, tem eu esculhambando o texto do Aluísio (sorry, dude), tem zoeira com a crítica literária, tem um monte de coisa legal. Só não tem fan art engraçadinha (ainda).

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Marvel Now tá saindo no Brasil! Leiam, tá irado! Aproveitam enquanto o Matt Fraction é o novo Bendis-antigo, porque daqui a pouco ele vira o novo Bendis-atual e os roteiros vão ficar uma merda!

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And that’s it.

Metal contra os mortos e uma ou outra novidade

julho 17, 2012

Fui convocado perante os nefastos senhores encapuzados que, do alto de sua cidadela sombria, ditam os sortilégios que governam os rumos da Tarja Editorial e recebi a notícia, confirmando a publicação do meu próximo (terceiro) romance para o começo de 2013 (hmm, talvez esteja exagerando um pouco a solenidade da ocasião, apenas talvez). Mas sim, aproveitarei este post pra falar um pouco do novo rebento e de outras publicações.

Quando comecei a escrever o romance novo, ele era a história de um fã que, obcecado pela ‘traição’ de sua banda predileta, resolve sequestrá-los e forçá-los a recuperarem sua ‘integridade artistica’ – ou seja, abandonar o pop grudento e comercial pelo qual tinham trocado o heavy metal do início de carreira e voltar às raízes.  Não era pra ter nada sobrenatural. Mas, enquanto escrevia os primeiros capítulos, ficava pensando, “porra, tá faltando alguma coisa”. Rapidamente tive aquele estalo. “Claro que está faltando alguma coisa! Zumbis!”. Daí surgiu Metal contra os mortos. Segue a humilde apresentação (que não é nada definitivo, apenas o texto de apresentação que anexei ao original):

Jorge é, acima de tudo, um fã. Um fã que dedicou boa parte da vida a cultuar sua banda de heavy metal preferida, o Immortal X, seguindo de perto os passos dos músicos, desde a cena underground ao relativo sucesso no exterior. Porém, infelizmente, todo relacionamento tem seus altos e baixos. Jorge não conseguiu entender o que levou sua banda predileta a fazer aquilo: deixar de lado as guitarras distorcidas do heavy metal e enveredar pelo pop grudento e romântico, fácil de assoviar, fácil de cantar junto. Dessa maneira indigesta, a banda finalmente alcançou o sucesso comercial, seus rostos estampando capas de revista, canções em looping no rádio e na novela, discos nas listas de mais vendidos.

Inconformado, Jorge decidiu remediar a situação. Ele arquitetou seu plano, iria sequestrar a banda quando eles estivessem prestes a entrar em estúdio e gravar o próximo álbum. E não seriam aqueles mercenários gananciosos que decidiriam o que gravar a seguir. Jorge decidiria. Ele faria com que voltassem ao heavy metal e essa seria a sua redenção – a da banda e, sobretudo, a de Jorge.

Entretanto, ninguém poderia prever que durante a noite que Jorge reservara para sua grande desforra algo completamente inesperado fosse ocorrer: o apocalipse zumbi. Tal qual nos filmes, quando os mortos se levantam e cambaleiam entre os vivos, ansiando por carne humana. Jorge, porém, passara a noite de tocaia no estúdio, esperando a banda chegar. Sequer suspeitava que houvesse um apocalipse lá fora. Não acreditou naquilo. Afinal, o que importava era que o Immortal X gravasse o melhor álbum de heavy metal de todos os tempos, e Jorge não descansaria enquanto sua cruzada não estivesse terminada. Não iria se deixar levar por aquele papo de apocalipse zumbi.

Metal contra os mortos conta a história de Jorge, o fã obcecado que projeta em sua banda predileta todas as frustrações de seus próprios fracassos, mas também conta diversas outras histórias. Lucas, o baixista do Immortal X, compositor e letrista da banda, responsável pela abrupta mudança de orientação que transformou o Immortal X em pop romântico. Michele, estudante de Letras, blogueira e dublê de escritora que é arrastada para o meio do caos, confundida por Jorge com uma groupie da banda. Wellington, o vocalista. Pablo, a segunda guitarra. Diego, o nerd que assistiu a filmes de zumbi demais. Alex, o técnico de som. E outros, inclusive um beagle chamado Aquiles.

Bom, nunca foi exatamente meu objetivo escrever duas histórias de zumbi seguidas, as coisas simplesmente aconteceram. Mas – eu espero – da mesma maneira que o Memórias desmortas é muito mais sobre literatura do que sobre zumbis, Metal contra os mortos também não é sobre zumbis.

Os zumbis só estão lá comendo as pessoas, sáca?

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Mas isso vai ser só em 2013. Eu sei que vocês estão ansiando avidamente pela minha produção literária (yeah, right), mas quem não estiver conseguindo se aguentar pode aproveitar os contos que publico esse ano. Subornei os editores da Draco com meu corpo sexy e por isso estou em três antologias.

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Em Imaginários Volume 5 (uma série já tradicional da litfan nacional, ainda em pré-venda e com descontão) publico “O Relojoeiro cego”, um conto sobre anjos, para vocês verem como eu não hesito em me vender ao sistema e adotar qualquer nova modinha que aparece. Não é lá muito convencional, though (meu leitor beta de estimação me chamou de “doente”).

Já notaram que quanto mais apocalíptico o futuro, menos roupa nas piriguetchis?

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Em Brinquedos mortais (organizado pelo Tibor Moricz e o Saint-Clair Stockler, por enquanto à venda em formato digital apenas), eu participo com o conto “Austenolatria”, que tem até sinopse oficial: “Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.”

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Por fim (e ainda sem capinha), publico um conto meio escrachado na coletânea Super-Heróis, “A ascensão e cancelamento do mais infame supergrupo de heróis da Terra”. Brinco com clichês de heróis de HQs e uso alguma metalinguagem sobre o gênero, mas não se preocupem com tanta sofisticação, ainda tem muitas piadas sobre manatis (um tema recorrente na minha vasta obra). Para as três pessoas que leram o Nerdquest (aquele meu primeiro romance…), o conto inteiro é um easter egg (algo como “o que aconteceria se os nerds fracassados do Nerdquest ganhassem superpoderes?”).

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Para finalizar, e relembrando que o Memórias desmortas de Brás Cubas está à venda em uma pá de lugares (tipo aqui, aqui e aqui), segue uma ilustra foda que o Pedro Éboli (a parte do Tv e Cerveja que ainda tem fé na humanidade) fez do ZumBrás Cubas.

Cuidado! ZumBrás Cubas quer devorar o seu cânone!

Bjundas, e até a próxima!

Resenha de Jogador nº1 (Ready player one) e minha opinião sobre coisas que ninguém nunca me perguntou

abril 5, 2012

Terminei de ler semana passada o divertido Ready player one (em português, Jogador nº 1). O livro não tem muitas pretensões e deixa isso bem escancarado desde o começo. É um romance em que o personagem principal não é exatamente o Garoto(a) Underdog Em Alguma Quest Épica, como acontece em quase toda young adult novel. O protagonista de fato é a cultura pop dos anos 80 – o que já de cara diz bastante sobre esse lance de “pretensões”.

Porque Space Invaders é muito mais épico do que tacar um anel em um vulcão

Pra quem não leu nada a respeito ainda, um resumo rápido, em itens: (i) futuro pseudo-distópico (caláro), com direito a colapso econômico graças a cagadas ecológicas diversas; (ii) boa parte da humanidade é viciada em um tipo de MMORPG que faz WoW parecer o Ninja Gaiden do Nintendinho, e meio que se tornou tipo o ultimate escapismo; (iii) o criador do tal MMORPG morre sem deixar herdeiros (nerd virgem do caralho) e deixa toda sua fortuna tensa pra quem completar uma quest bizarra que ele inseriu dentro do jogo; (iv) ninguém consegue completar a porcaria da quest, até o Garoto Underdog que eu mencionei antes mandar ver na parada.

Detalhe: o criador do tal jogo era um nerd que cresceu durante os anos 80. Ele era obcecado pela própria infância / adolescência (em psicologia isso é chamado de Síndrome do Nerd Virgem, podem procurar na Wikipédia). Por isso, as quests que ele criou para testar aqueles manés valorosos o suficiente para herdar sua fortuna são referências a ícones dos anos 80 (alguns bem conhecidos e outros completamente obscuros). Beleza.

Outros escritores fazem uso de referências sem que elas ocupem o spotlight do texto (Nick Hornby e Junot Diaz são os que brotam na minha cabeça sem esforço), mas Ernest Cline (o autor do livro) não se preocupa em usar as referências pop para complementar ou enriquecer os personagens, justamente o contrário – a cultura pop dos anos 80 justifica a existência dos personagens, a partir das elaboradas quests que o autor inventa e que os personagens devem cumprir. O resto – inclusive o cenário distópico – é apenas um pano de fundo, que chega a ser entediante em alguns momentos. O leitor fica torcendo para a narrativa voltar às quests – e aos anos 80! – e pouco lhe importa o que será feito com os personagens. Tem algo errado aí.

Mas não importa se tem algo “errado” (relativizando como se não houvesse amanhã aqui, pra variar), porque é divertido. Mas-contudo-porém-entretanto-todavia, foi outro aspecto que me incomodou o suficiente pra escrever essa resenha e não apenas marcar três estrelas no Skoob e comentar o que achei com o @tvecerveja no Bar do Anão.

Estamos falando de um romance para young adults (que recebeu prêmio e o caralho, inclusive). Toda a narrativa é explorada de maneira simples – simplória – para fácil assimilação, sem se aprofundar nos personagens e optando pelo estereótipo sempre que surge a escolha, seguindo apenas uma linha narrativa onde os obstáculos – não apenas as quests em si – vão surgindo e sendo superados de maneira linear e hierárquica, como fases em um videogame vintage – o que é interessante, visto que é um romance sobre videogames e que se passa em um videogame, embora that’s not my point.  (Interlúdio: sob vários aspectos, é uma narrativa mais “simples” do que outros YAs, tipo Hunger games ou Uglies). O estranho é toda essa estrutura de assimilação rápida e preguiçosa estar construída em torno de referências à cultura pop dos anos 80: Ready player one é um paradoxo, um young adult cujo público preferencial tem mais de trinta anos.

Porra, eu tenho mais de trinta anos e boiei como água viva em boa parte das referências. (Mas isso não vem ao caso).

Sem querer ser mamilos, acredito que isso diga muita coisa sobre o mercado editorial de hoje (não necessariamente sobre os leitores, e nem sobre o escritor, que nunca vi mais gordo, mas sobre quem manda). O público “adulto” está (supostamente) cada vez mais se contentando com the easy way out – com a solução mais fácil, simples, rápida e – por falta de palavra melhor – boba. Não digo isso tomando partido de alguma causa em prol do emprego de complexas técnicas narrativas pós-modernas, que fariam com que todos os romances divertidos se tornassem textos adultamente insuportáveis, compreensíveis apenas para a meia dúzia de acadêmicos que teria saco de lê-los até o fim. De jeito nenhum, porra. Mas é como se a cultura – americana – do blockbuster do verão tenha tomado de assalto a literatura. E o problema é que, enquanto ninguém mais se lembra do blockbuster do verão passado, a literatura tem esse péssimo hábito de ficar. De marcar as pessoas e causar indeléveis danos a suas psiques. E quando o leitor adulto passa a se contentar, and I mean, sente-se plenamente satisfeito, com algo que não vai muito além de um quiz complexo sobre a cultura pop de 30 anos atrás, sim, tem algo errado. Pois o leitor mais jovem – aquele ainda começando a se deslumbrar com as coisas legais que a literatura pode proporcionar – até vai ler o livro de cabo a rabo, mas não vai possuir a bagagem ou, principalmente, os laços emocionais com o tema para captar what’s the point. Acontece que o leitor adulto deveria estar capacitado para reconhecer o “valor” (relativizando aqui, please) do entretenimento raso e tratá-lo como tal.

Concordo que entreter sempre é o objetivo principal (Shakespeare wrote for money, já disse o Nick Hornby), mas é aquele negócio – diversão por diversão é melhor ir brincar no parquinho. Tem balanço, trepa-trepa, aquele troço que roda e te deixa meio tonto. Mas o jovem leitor precisa amadurecer. Admito que sou ingênuo pra caralho (e sem contar meio idealista) e estou partindo do princípio que o leitor quer amadurecer. Sei que não é assim que a banda toca e é bem mais cômodo, tal e qual o nerd virgem criador do MMORPG de Ready player one, buscar refúgio no fácil, simples e garantido, aceitar sem questionar o que é imposto ou endossado por uma suposta maioria. Mas não.

Shakespeare escrevia por dinheiro e ainda repeliu uma invasão de bruxas alienígenas naquele episódio de Doctor Who. Melhor não contrariar o cara.

Ready player one é divertido e relevante, como homenagem a uma subcultura que começou a florescer nos anos 80 e hoje superou o prefixo “sub”. Mas sua narrativa não ousa além da vocação auto-imposta por ser o blockbuster do verão seguinte (objetivo este que foi plenamente satisfeito – os direitos do livro já haviam sido comprados antes mesmo de ele ser publicado). Mas, infelizmente, fica por aí. Se o seu público alvo já está satisfeito, não há por que explorar qualquer potencial, pois não se almeja mais que isso – dá pra se virar seguindo a fórmula confortável que é vendida como “a certa”.

Whatever, nem sei se estou fazendo muito sentido pras pessoas normais e sóbrias. A moral da história é que o livro é divertido e eu curti – mas não serve at all se o que você estiver procurando é algo além do que o conteúdo que uma partida de Culdcept no PS2 proporciona (e, sim, às vezes – pelo menos às vezes – você deveria estar procurando algo mais).

Bjundas.

Retrospectiva 2011 (leituras e etc)

fevereiro 3, 2012

Cedo ou tarde eu iria ter que tirar a poeira dessa porcaria de blog, não é? Aparentemente hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro, então bóra lá fazer uma retrospectivas das Coisas Legais Que Vocês Deveriam Ler Mas Não Estão Lendo Porque Ainda Não Terminaram A Trilogia Millenium.

Um dos melhores livros de fantasia que li ano passado foi Zoo City, da Lauren Beukes. A trama é bem weird, um tipo de “praga” mágica faz com que pessoas que cometem quaisquer tipo de atrocidades sejam forçadas a carregar animais como tokens de sua desgraça. É complicado explicar. É tipo os daemons do Philip Pullman, só que ao contrário (sério, não é piadinha). As criaturas são mágicas, aparecem do nada e não refletem o “crime” cometido. Você pode ter chacinado um estádio de futebol, mas nada garante que seu familiar será um tigre ameaçador. Pode ser um marreco que anda cagando como qualquer outro (marreco, né).

Ah, e os familiars também têm poderes, embora nada garanta que eles sejam úteis. O bicho-preguiça da protagonista, Zinzi December, ajuda ela a encontrar coisas perdidas (o que é cool). O livro é ótimo, um pageturner que não é apenas o pageturner da semana. E se você precisa de motivos extras pra ler, olha só que gracinha é a autora (que ganhou o Arthur C. Clarke Award, btw):

Fazia fácil e ainda mandava sms no dia seguinte.

Outro livro foda que li foi o The city and the city, do China Miéville. Eu sou baba-ovo do Miéville, admito, e acho que todo mundo tinha que estar lendo alguma coisa dele e – sim – eu te acho mongoloide (ecoando aqui o Ignatius de Uma confraria de tolos) até você ter lido pelo menos o Perdido Street Station (btw, você também deveria ter lido Uma confraria de tolos, pra entender a piada). O The city é a história de duas cidades que ocupam o mesmo espaço. “Tá”, você vai dizer, “que nem aquele livro chato do Neil Gaiman que virou uma HQ mais chata ainda”. Que nada. Vai por mim. O livro é um noir bizarro, sobre um detetive investigando um crime em um cenário completamente freak. Vai por mim, sério, tô dizendo. Achei o The city melhor estruturado e mais bem amarrado do que o Perdido (que em determinados momentos parece um amontoado desconexo de ideias geniais, e é onde o livro perde força). Ah, e também li o Kraken, que eu achei beeeeem fraco. Não dá pra acertar sempre.

Como coloquei a foto da Lauren pros meninos, pra vocês não dizerem que não tem igualdade entre os sexos nesse blog machista, vai lá uma foto do Miéville:

Admito que eu só frequento academia porque se algum dia encontrar o Miéville não quero me sentir ridículo demais ostentando minha barriga de chope.

Continuando na literatura de gênero, essa lindeza, li os dois primeiros volumes da First Law Trilogy, do inglês Joe Abercrombie. A série segue os princípios da low fantasy, tão popularizada por Aquele Que Escreve Devagar: os personagens são sujos, mijam, cospem, arrancam entranhas e socam uma gloriosa antes de dormir pra dar uma aliviada na tensão. E não tem magia farofa, deuses pintosos, dragões falantes, essas merdas. O primeiro volume, The blade itself, tem dois personagens principais que roubam a cena: um é o torturador Glokta, e o outro o playboy Jezal.

Glokta é um torturador que experimentou em primeira mão o ofício que domina, sofreu um crash course ao ser ele mesmo torturado, em uma guerra anterior, até que o seu corpo tenha se tornado um amontoado de pedaços de carne imprestáveis colados com ossos quebrados e mal curados. Uma das melhores cenas do livro é a angustiante sequência em que Glokta tenta levantar da cama ao acordar de manhã. Sério.

Jezal, por sua vez, é um nobre e bon vivant que supostamente treina para uma competição de esgrima, embora invista a maior parte do seu tempo no sagrado trinômio carteado-bar-puteiro. A cena icônica do personagem é o próprio admirando a perfeição simétrica do próprio queixo no espelho.

O segundo livro dá mais espaço para outros personagens, o que é meio chato na medida em que nenhum deles tem o carisma de Glokta e Jezal (embora eu tenha que admitir que aos poucos os bárbaros Logen e Dogman e o Major West ganharam um pouco da minha preferência também). A série não é genial de subir no caixote pra obrigar todo mundo a ler, mas vale a pena check it out.

A ficção científica mais legal que li foi Leviathan wakes, de um tal James S. A. Corey, que é basicamente um pseudônimo dos autores Daniel Abraham e Ty Franks. É uma space opera hard – nada de saltos interestelares e “time is like a big ball of wibbly wobbly… time-y winey… stuff” – com dois narradores bem distintos e ambos bastante críveis e interessantes, um oficial terráqueo de uma espaçonave e um detetive nativo de uma das estações espaciais do Cinturão de asteroides. Bate na madeira aí, mas vale a pena lembrar que o Daniel Abraham é o minion oficial do George R. R. Martin, então no caso de uma Robert Jordan situation – vocês sabem onde eu estou querendo chegar, né ? (E olha que eu não tinha gostado do primeiro volume da série de fantasia dele, The Dragon’s Path, mas felizmente o Leviathan wakes – IMO – tem tudo que The Dragon’s Path não tem).

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Tenho mais livro pra recomendar. Mas fica pro um próximo post (ou não). Deixo vocês com a questão que caiu no vestibular da UFRN sobre o Memórias desmortas de Brás Cubas. Vejam se vocês conseguem resolver.

Cobrar na bibliografia que é bom, nada

Obviamente o gabarito é D. Mas juro que foi cogitada uma ideia nefasta – surgida no lançamento da antologia Dieselpunk, da @editoradraco, durante um shitstorm entre eu, @tvecerveja, @anadefinisterra e um maluco que eu não lembro quem era (foi mal aí) – e que seria a Coisa Mais Divertida do Universo. Se eu fosse o Ultimate Troll, escreveria um post indignado refutando o gabarito: “MAS É CLARO QUE NÃO É PARÓDIA, EU QUIS FAZER UMA PARÁFRASE DIRETA, PRA MIM ESTAVA ÓBVIO!”, só pra ver o circo pegar fogo. Sim, sim, ia ser genial, mas não sou tão espírito de porco. Hehe.

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Tá, em termos de publicação o ano passado foi fail. Só pra não dizer que eu não publiquei nada, tem um artigo sobre o Perdido Street Station, de um trabalho que apresentei no Painel de Reflexões sobre o Insólito (lá na Uerj) e outro artigo sobre dois romances pós-coloniais, o excelente Dreaming  in Cuban e o não tão excelente, mas ainda assim bem legal, Jasmine, que apresentei em um congresso em Bsb. Mas eu juro que esse ano vou tentar publicar alguma coisa. Ficção, de preferência. Sério. Novidades (ou não) em breve.

Bjundas

A Dance with Dragons e uma enxurrada de flashbacks de Wheel of Time

agosto 25, 2011

A dance with dragons, o quinto livro da série A Song of Ice and Fire, escrito por blá blá blá blá, todo mundo que é legal já leu, portanto o que você está esperando? Não vou me alongar nos detalhes default.

Então, essa vai ser uma pseudo-resenha do A dance with dragons (doravante, ADwD). Bem moderada nos spoilers – na medida do possível. Não sei se vai ser uma resenha de facto, já que também pretendo falar de Wheel of Time. Talvez fale mais de Wheel of Time (doravante, WoT) do que do ADwD. Pois essa vai ser uma resenha emotiva. O livro me causou (e em outros sobreviventes de WoT, inclusive) flashbacks de experiências que gostaríamos de esquecer. Traumas passados. Ok, melhor admitir logo, essa resenha sequer pretende ser uma resenha, uma vez que provavelmente não vou embasar porra nenhuma – lembrando: a casa trabalha em termos completamente parciais (portanto, doravante, meu pau).

Todo mundo que é legal já conhece A Song of Ice and Fire (doravante, ASoIaF), mas nem todo mundo conhece Wheel of time. A série ficou célebre por ter sido o épico de fantasia que nunca terminou: o autor, Robert Jordan, depois de 15 anos e 11 livros, morreu antes de digitar o ponto final para acabar com todos os pontos finais. E jurando de pés juntos que lhe faltava apenas mais um livro. Do dia pra noite, o cara descobriu que tinha uma dessas doenças que aparecem em episódios do House (não, não era lúpus). E, como na vida real o bagulho é tenso, não houve House que operasse milagre. Comentei a morte dele em um post emocionado e completamente meu pau aqui

A série está nas ótimas mãos do Brandon Sanderson (já comentei sobre ele, right here).

Voltamos para ADwD e os flashbacks. Entendam: eu sofri uma terapia de choque. Saí do livro 10 de WoT e caí quase que diretamente no livro 1 de ASoIaF, sim aquele Game of Thrones que todo mundo que é parte da tchurma já leu.

Agora vamos falar do livro 10 de WoT. The eye of the world (o livro 1) era uma trama das mais simples, com um núcleo de personagens principais enxuto e um cast de coadjuvantes de luxo generoso, porém comedido. A saber: tínhamos Rand, Mat, Perrin, Egwene e Nynaeve (fuck, eu olhei na Wikipédia e ainda sei escrever esses nomes). Daí pra frente, culminando da pior maneira ever no livro 10, as coisas atingem proporções leviatãnescas. Havia livros em que um dos ex-protagonistas sequer aparecia. Livros, plural. O plot “épico” (adjetivo escroto pra caralho) caminhava inexorável pra famigerada Última Batalha: os bonzinhos contra os malvados. Sim, WoT pode ser reduzido ao maniqueísmo que todos amam, mesmo com o Robert Jordan tentando despistar a gente de vez em quando. Mas o caminho inexorável não significa que é uma fucking linha reta.

Nos últimos livros, os plots principais haviam ficado insuportáveis. Eu queria que o Mat fosse estuprado por aquela noiva dele, com um dildo Trolloc. Queria que o Perrin arrancasse o coração da Faile e desse de comer ao cigano chato pra caralho – e finalmente sapecasse a Berelain. Queria que o Rand deixasse de ser uma bichinha emo e partisse pro ultimate fight (tá, justiça seja feita, ele faz isso e ainda come geral – spoiler). Ao mesmo tempo, em cada livro o Roberto Jordão atochava uma novidade indigesta: um continente novo, uma cultura exótica, um fucking mundo dos sonhos, uma dimensão encaralhada de bicho escroto –  E ETC. E assim abria-se um plot, um mundo adicional a ser “explorado”: um plot que NO ONE COUD GIVE A FUCK. Certas coisas só ficam bem em caps e no idioma de Shakespeare.

Os plots que importavam – e faziam a história ficar interessante – eram plots coadjuvantes, porém relacionados sempre ao plot principal, ao universo básico dos 3 primeiros livros (creio que a ruptura que desencadeou a cagada toda foi a introdução dos Aiel, no quarto livro, daí pra frente cada livro teve algum bicho novo). O divertido de acompanhar eram as intrigas entre Aes Sedai, a caçada ao Black Ajah, os Asha’man ficando cada vez mais fuderosos. Entre frustrações e avanços repentinos (vide final do livro 9, que é ótimo), a série se sustenta (ou melhor, se arrasta).

E ADwD? Que tem a ver com isso? Eu mesmo já execrei WoT em todas as mesas de bar de Copacabana (sério, essas discussões são frequentes lá em Copa), e agora tô aqui tentando aliviar a barra de WoT pra espinafrar ASoIaF? Meu pau, né.

Não, filho, segura a tua onda aí. ADwD foi a primeira vez que a minha precária mente fez qualquer associação entre WoT e ASoIaF que não fosse pra comemorar o quanto ambas as séries são tãaao diferentes. A obsessão do Martin por descrever aquele Continente Chato pra Caralho que Não é Westeros e as Culturas Chatas pra Caralho que Não São as que Importam lembra amargamente a técnica Robert Jordan de dar uma valorizada no tempo de jogo. “Eu sei que você quer ver pra onde eu tô indo, mas olha aqui que bonitinho essa coisinha brilhante que o titio preparou pra você, se chama worldbuilding”, só desviando o foco. Assim, os nossos personagens prediletos se tornam um suplício: Jon, Dany (que já vinha meio chatinha de outros carnavais, btw) e o Tyrion. Bicho, o TYRION. Eu só queria que o Rand aparecesse e mandasse um balefire naqueles escravos insuportáveis e apagasse TODOS da minha mente e do plot do livro (nerdjoke, não é pra entender).

Sem contar que o livro é uma ode à Síndrome de Estocolmo (piada esta roubada do @pedrofraga, acho). Todo mundo é refém de alguém o tempo todo. Todo mundo está impotente, o Grande Plot tem a todos – metaforica e literalmente – sendo empregados em seu proveito. Rola até uma metalinguagem malandra: parece que o próprio Martin é refém do plot que ele arquitetou e não sabe resolver.

Os plots interessantes são os coadjuvantes. Os que você torce pra se repetirem são os de personagens que sequer estavam com a gente no primeiro livro. Da mesma maneira que Rand, Mat e Perrin se diluíram e perderam o foco em WoT; Tyrion, Jon e Dany se tornam meros artifícios pra garantir um sossega leão no ritmo desenfreado que a série tinha nos acostumado no livro 3 e nos melhores momentos do livro 4. Até a Arya, quando aparece, tem um clima meio WoT que me fez ter vontade de espernear: “a minha suspensão de descrença vai  aceitar qualquer porcaria que o senhor invente, Martin – não precisa se alongar no worldbuilding. NÃO MAIS”.

E – bem como em várias prestações do Wheel of Time – o livro termina com um cliffhanger tenso. E eu iria mais longe: um cliffhanger COVARDE. Funciona? Veremos. Juro que ainda não formei opinião (e olha que eu formo opinião que é uma beleza, piscou, formei opinião). Sem contar o detalhe mais alarmante: NADA indica que ele esteja demonstrando qualquer intenção de chamar os plots pra uma conversa séria, mandar um “não é culpa de vocês, é comigo”, e terminar com eles. Nisso o Martin também está encarnando o Robert Jordan: se comportando mal e esperando os plots terminarem com ele antes. Pra sair bem na foto, sei lá. Modus operandi típico, humpf. O Martin prometeu finalizar em dois livros – foi mal aí, quem sofreu Wheel of Time é bem cético no que diz respeito a essas questões, er, delicadas.

Evidente que estou decepcionado, é de longe o livro mais fraco da série. É ruim? Não. O mais fraco de ASoIaD ainda é bom. Mas soa como um eco dissonante que remete aos piores momentos de Wheel of Time – e, porra, eu fiquei traumatizado com essa parada mesmo. Anyway, meu pau. De qualquer maneira, leiam e tirem suas próprias conclusões. O próximo livro já tem nome: The winds of winter e eu acredito que o Brandon Sanderson fará um ótimo trabalho. BRINKS😛

Só pra constar: ainda vou ler o livro 12, o livro 13 e o maldito livro 14 do Wheel of Time, vou sim. Hehe.

Obs: A resenha da Ana Carol é mais ilustrativa e menos aloprada que a minha, check it out.

Obs (1): Estou lendo The blade itself, do Joe Abercrombie, e de repente rola uma resenha aqui. Curtindo deveras.

Obs (2): Escrevendo livro novo também. Wait and see (or not, nunca se sabe).

Manati

julho 28, 2011

Então, galera, eu chamei vocês aqui hoje por um motivo.

Beleza, mas deixa eu pedir cerveja antes? Tipo, tô seco e tá um calor escroto.

É pra falar de sábado passado, né?

É, é.

Cara, você pegou o bagulho mais feio que eu já vi na vida.

É, cara, ela parecia um manati.

Não to dizendo que era gorda. Tu sabe que eu curto um sobrepeso, pô, sem preconceito. Ela realmente parecia um manati. Tinha formas de manati. E cara de manati, até uns bigodes loiros.

Não me diga que tu levou ela pra casa.

Não tem nada a ver com isso. Vocês vão me deixar falar?

Fala aí, porra.

Espera, vou pedir uma cachaça antes. Tô com medo de vocês estarem sóbrios demais pro que eu tenho a dizer. Ricardo, traz três cachaças daquela mineira, boa. Da reserva do Orlando, não traz da vagabunda não.

Porra, pediu cachaça pede torresmo também.

O torresmo tá ruim.

Tá ruim?

Tá.

Porra, eu tava afim de um torresmo.

Cara, o Ricardo acabou de dizer que tá ruim. Lembra da última vez que a gente duvidou dele, né? Traz um mocotó grande pra mim. E vocês o que querem? Traz dois caldinhos de feijão pra eles.

Você terminou Final Fantasy XIII?

Não, tá foda. Tão me quebrando na repartição.

Traz outra cerveja, Ricardo.

Então, porra, eu tava falando.

Ah sim, você tava.

Conta aí.

Pois é, naquele sábado eu fui abduzido.

Mas foi exatamente o que eu tinha dito, porra.  A mulher manati te abduziu. Como você teve coragem, na boa?

É cara, tu nem tinha bebido tudo isso.

Não, seus viados, eu fui abduzido por uma civilização intergaláctica.

A federação galáctica das barangas?

Porra, cara, to falando sério!

Tá bom, bicho, não precisa ficar puto, olha a cagada. Ricardo, traz um pano aqui que a boneca se enfezou. E outra cerveja.

Eu. Tô. Falando. Sério. Porra.

Tá bom, cara, foi mal.

Tem certeza que você não tomou um boa noite Cinderella? Sério, tá foda. Tem um chegado meu da repartição

Não, cara, tenho certeza.

Que porra é essa?

Eles me treinaram pra comandar uma armada galáctica em uma guerra. Esse aqui é o meu intercomunicador, e, tipo, eu uso pra manejar a armada em tempo real. Vocês tão vendo isso? Então, eu tô usando um cinturão de asteroides como cobertura pra

Não fode, cara. Esse é o plot de Ender’s game.

Ah?

O jogo do exterminador, é um romance de ficção científica em que um maluco mata outro com um chute no saco, é irado.

Tá zoando. Um chute no saco?

É genial.

Caralho, vocês querem prestar atenção?

Bicho, eu vi esse jogo vendendo na Uruguaiana outro dia. Tu tá surtado. Essa parada aí é tipo o novo Pokémon ou Yu Gi Oh, sei lá o que os moleques jogam hoje em dia.

Mas é tipo o quê?

É um Starcraft mais mongol.

Eu sabia que vocês não iam entender. Eu sabia. Pra vocês tudo é um jogo, uma grande brincadeira, né? não conseguem levar nada a sério, de verdade, vocês

Não fode, deixa eu ver essa parada aí

LARGA ISSO AGORA!

Peraí, cara, como é que eu movo as navezinhas?

LARGA ISSO! DEVOLVE!

O que tá acontecendo aqui?

Traz um pano de novo, Ricardo, hoje tá foda.

VOCÊ NÃO PODE MOVIMENTAR AS MINHAS TROPAS!

AHÁ, olha o que eu to fazendo, navezinha pequena, atacar navezinha grande. Vai! Vai navezinha!

Bicho, quer ficar calmo? Ninguém vai estragar seu jogo, é só ele não salvar.

O DESTINO DE UM IMPÉRIO INTERGALÁCTICO ESTÁ SENDO DECIDIDO!

Se ele continuar gritando eu vou ter que pedir pra vocês saírem. Ele tá bem?

Ele parece bem?

Tô tirando onda na paradinha aqui, só nos raio laser.

Idiota, você vai gastar todas as minhas células de energia! Você sabe quantos sóis foram exauridos para carregar esse torpedos de

Olha aqui, seu mané. Nem sabia mexer nessa porra e ganhei o jogo em dois minutos. Se liga, tapado. Olha a navezinha explodindo.

Você… você abateu o cruzador imperial. Você venceu a guerra!

Aham. E por que meu copo tá vazio?

Humanos, obrigado pelo auxílio. O seu papel foi inestimável na derrota da inteligência suprema galáctica sombria de

Ah, sai daqui, seu manati.

Mais coisas legais para ler e/ou os meus livros de 2010

dezembro 20, 2010

O ano está acabando e minhas leituras também (pretendo deixar a literatura de lado em prol do videogame, pelo menos até o fim do ano, né). Então, como estou me forçando a atualizar esse blog chinfrim com um arremedo de regularidade, vou listar os melhores livros que eu li no ano e fazer alguns comentários randômicos.

Confederacy of dunces (Uma confraria de tolos), de John Kennedy Toole, é simplesmente genial. Já vou avisando que é bem difícil contar o plot do livro. Não acontece muita coisa, at all. O protagonista é Ignatius Reilly, um Dom Quixote ainda mais perturbado das ideias, especialista em filosofia medieval e com um radical desdém pela cultura pop – que faz com que ele vá constantemente a filmes e shows que abomina, só pra exacerbar sua raivinha (embora, mesmo com todo o desprezo pela cultura pop, ele frisa respeitar o Batman, o cara nao é bobo). O plot se resume – mais ou menos – a Ignatius fazendo de tudo para não precisar arranjar um emprego (uma vez que ele é sustentado pela mãe e foi demitido da faculdade onde trabalhou por um breve período) enquanto destila sua repulsa contra todo mundo que ele considera mongoloid (e sim, esse é o termo ofensivo que o próprio Ignatius usa).

Confederacy teria sido o livro mais foda do (meu) ano se eu não tivesse lido O paraíso é bem bacana, do Andre Sant’anna, agora em dezembro. Cheio de experimentalismos e pós-modernismos da vida, é um livro fenomenal. Através de vários narradores (e de uma narrativa aparentemente caótica, mas que de desorganizada não tem nada) conta a história de Mané, um moleque fudido da cabeça que só sabe fazer duas coisas: tocar punheta e jogar bola. Porém, assim que a narrativa começa, descobrimos que o pobre Mané está em uma cama de hospital, todo estropiado, pois se explodiu (ou se martirizou em nome de Alá) durante um jogo de seu time na Alemanha – onde fora jogar. A trajetória do menino punheteiro bom de bola até o homem bomba na Alemanha é genial, tensa, engraçada, triste, patética, de tudo um pouco – e o brilhante monólogo ensandecido nas páginas finais do livro é completamente mindfucking.

Estrela distante foi o Bolaño que eu li esse ano (mantenho a média de um por ano, pra não gastar, pô). E em todos os anos o Bolaño do ano entra na lista do que eu li de melhor. Não sei se prefiro Estrela distante ou Noturno do Chile, curti ambos imensamente. E como o Bolaño já tem hype suficiente, não preciso me alongar aqui. Leiam Bolaño, porra.

Vamos sair um pouco do mainstream e passar pra genre fiction. Não vou falar de China Miéville e Angela Carter porque (provavelmente) farei o meu mestrado sobre ambos, então tenho muuuito tempo ainda pra falar deles. Mas, fora Carter e Miéville, li pouca coisa realmente excepcional em ficção cientifica e fantasia (mas já citei o The way of kings, né?). Bom, pelo menos li Rendezvous with Rama.

Rendezvous with Rama (Encontro com Rama), do Arthur C. Clark, é daqueles livros de FC que se tornaram canônicos e – ao contrário de dezenas de outros – se mantém firme e forte contra the test of time. Não vou ficar falando aqui de livro que todo mundo conhece (ou tem a obrigação de conhecer o mais rápido possível), mas é ótimo topar com uma FC dos anos 70 que continua (bem) relevante. Mas já me alertaram pra ficar longe das continuações, e ficarei. Hehe.

E as menções honrosas que eu estou com preguiça de acrescentar: Sábado não foi o melhor livro do Ian McEwan que já li (e nem o pior), mas ainda assim tem seus momentos brilhantes; Catch-22 (Ardil 22), do Joseph Heller, por vezes parece um pouco longo demais, mas nem assim deixa de ser excelente.

E as decepções do ano ficaram para A) Boneshaker (Cherrie Priest), que é um puta de um high concept (história alternativa envolvedo a Guerra Civil americana, steampunk e zumbis!), mas é mal executado pra caralho. Narrativa frouxa, personagens rasos (e sem carisma nenhum), clichês idiotas. BAH; B) Yellow Blue Tibia, do Adam Roberts, é outro puta high concept (logo depois da 2ª Guerra, Stalin chama um grupo de escritores de ficção cientifica da URSS para conceber uma história de invasão alienígena, que seria usada como fachada para manter a URSS unida contra um inimigo comum (aliens radioativos!), assim que os EUA fossem destruídos), mas não rola também. Fora as 50 primeiras páginas (geniais), e um ou outro momento, o livro parece um conto que foi esticado para virar romance, cheio de encheção de linguiça mal engendrada.

Até o ano que vem.

(Ah, lembram-se que eu falei em colocar o Ary e o @pedrofraga pra postar resenhas trolls aqui? Nem sei se vai rolar, porque o Ary comprou um Xbox e o Fraga é uma biscate preguiçosa)

The Way of Kings e a fantasia épica megalomaníaca

dezembro 2, 2010

Vai uma série de fantasia épica de DEZ livros? Não? Faz bem. Você parece ser uma pessoa sensata, o que não é o meu caso.

Atazanado pelo Ary (aka @tvecerveja) durante, sei lá, meses, prometi que ia dar uma chance a The Way of Kings, primeiro volume de DEZ planejados para a série Stormlight Archives, assim que estivesse com tempo sobrando. Não preciso de mais séries épicas megalomaníacas!, mas me fudi nessa. E vou explicar como e por quê.

Quando anunciaram que o Sanderson iria substituir o falecido Robert Jordan em The Wheel of Time, a curiosidade mórbida me fez comprar o primeiro volume da série Mistborn, que era uma humilde trilogia. Quase larguei Mistborn nas primeiras cem páginas.

É o seguinte: assim que começo a reconhecer aqueles clichês enfarofados da jornada do herói já me embrulha o estômago. Às vezes dá pra fazer um esforço e relevar. Em outros casos, NÃO tem como – mantenham distância do intragável Wizard’s First Rule, do Terry Goodkind, por exemplo, devo ter suportado umas 50 páginas de jornada do herói for dummies antes de vomitar meu almoço.

Mistborn começa com algumas boas ideias (um mundo de fantasia onde o “evil-dark-overlord” venceu, humanos são escravos, a terra é coberta por cinzas que nunca cessam de cair do céu, etc). Mas também aqueles clichês mongoloides já saem brotando de cara; tem uma órfã bobalhona, ela ignora que seu destino é ser star (porra, citei Lulu Santos, vou lá rasgar o cu), um mentor fodão que é a pica mais grossa do oeste ensina ela a usar seus poderes mefíticos, esplendor na relva, lantejoulas cintilantes, mimimi.

Somam-se a isso umas caracterizações de personagens que beiram arquétipos de RPG e alguns diálogos meio tronchos, nada naturais e até constrangedores.

Porra, eu li esse livro mesmo?

Pois é, como eu disse, Mistborn não é uma obra prima, mas é, tipo assim, mega divertido. Quando o clichê da órfã aprendendo a usar seus poderes some no retrovisor e o livro decola, o Sanderson mostra o potencial que tem em imprimir ritmo e agilidade em sua narrativa. O sistema de “magia” é um dos mais criativos que eu já vi – tão criativo e intricado que não me lembro como funciona, vejam só. Mas o mecanismo É engenhoso e ele usa muito bem, eu juro. E as cenas de ação são ótimas. Até os diálogos soam melhor e os personagens ficam (um pouco) mais carismáticos, a partir lá da página 100. Inclusive a órfã fica suportável, e olha que eu tenho asco de órfão (o que não se aplica a Dickens, já que os órfãos dele não são predestinados a derrotar o senhor das trevas com superpoderes mágicos).

Nunca recomendaria Mistborn pra um não-leitor de fantasia (ao contrário de, por exemplo, Temeraire, da Naomi Novik ou A Game of Thrones, do Martin, por exemplo), mas é um livro divertido e transbordando potencial, se você pensar que Sanderson era um autor iniciante (esse é só o segundo livro dele). Até comprei o próximo livro da trilogia, mas ainda nem li.

E todo santo dia que nos posicionávamos em nossa mesa cativa no Bar do anão, o Ary repetia: “Já começou a ler Way of kings? ANDA, PORRA!”.

E o Brandon Sanderson já me ganhou no prólogo. Ele começa o livro com o que faz de melhor: descrevendo uma cena de porrada frenética, com itens mágicos esdrúxulos e (mais um) sistema de “magia” freak. Pois é, ficar empolgado com cena de porrada é muito coisa de adolescente (“ó meu deus, você devia estar lendo Faulkner, jovem mestrando!”), admito. Mas fato: não tem escritor na cena de fantasia atual que descreva porrada frenética melhor que o Brandon Sanderson.

Em TWoK existem algumas dezenas de itens mágicos ancestrais espalhados pelo mundo – armaduras e espadas mágicas TENSAS, que são praticamente armas de destruição em massa. Um shardbearer (o tiozão que usa as tais shardplate e shardblade) segura na boa um exército com alguns milhares de homens. O Ary tinha me descrito como “Cavaleiros do Zodíaco com esteroides e sem escrúpulos”, uma vez que quem tem posse das shards não são honrados cavaleiros, mas nobres, no geral filhosdeputas. Não sei até onde qualquer comparação com CdZ pode ser soar positiva, mas felizmente eles não gritam nomes de golpes.

O texto do Sanderson melhorou bastante. Os diálogos estão mais articulados (mas não completamente naturais, volta e meia ele cai na tronchice dos piores momentos do Mistborn), e os personagens estão mais interessantes (embora também insista em cair em alguns clichês, especialmente nos personagens secundários). Em outras partes ele insiste em ‘remoer’ algumas questões internas dos personagens (isso acontece mais nos plots do Kaladin e do Dalinar), e dá no saco. E outro empecilho megalomaníaco é o tamanho abissal do livro. Eu li no kindle, mas o bicho tem mais de mil páginas em árvores mortas.

Porém, todos os pontos positivos que eu realcei antes estão ainda melhores. A narrativa continua bem ágil, as cenas de ação parecem descrições de combates de videogame ou anime bem escrito. O sistema de “magia” é minuciosamente estruturado, quase como se descrito para constar de um livro de regras de RPG (embora nós, leitores, demoremos a entender como o mecanismo, que vai sendo descrito aos poucos, funciona).

E, felizmente, o Sanderson deixou de lado os clichês da jornada do herói, e nenhum dos plots é engessado pela estrutura. Claro, se alguma bitch do Campbell começar a catar pelo em ovo, vai achar o que quiser. Então fodam-se anyway, pardon my French.

O melhor plot é o do Kaladin, um lanceiro que acaba (por motivos revelados posteriormente, tcharam!) sendo escravizado e indo parar como um carregador de ponte em uma guerra lá na casa do cacete, contra uma raça de ‘selvagens’ acusados do assassinato, seis anos atrás, do rei. E até o plot da menina chata (SEMPRE tem uma menina chata em livros de fantasia, isso é regra), apesar de começar meio entediante, tem seu valor e vai ficando bem interessante.

Se eu começar a descrever o mundo, essa resenha vai durar trocentos anos. Sério, são muitas ideias legais (outras nem tanto) empilhadas casualmente e sendo explicadas aos poucos (sempre na tentativa de evitar um tom didático, que torna qualquer livro uma facada no saco). Nota-se que o worldbuilding foi realmente trabalhoso, e suspeito que o que vemos em TWoK é apenas a ponta do iceberg, especialmente devido à surpresinha nos acontecimentos finais do livro. FUCK YEAH, surpresinha.

Resumindo, é o melhor livro de fantasia-épica-farofa que eu li no ano. E, novamente, é um livro para FÃS de fantasia, pra gente acostumada com as convenções, peculiaridades e idiossincrasias do gênero. Não leitores de fantasia – ou os leitores sérios e sisudos que nunca conseguiriam se divertir com um tie-in de Warhammer 40K– não vão gostar.

Eu, particularmente, achei IRADO.

PS. Semana que vem volto a deixar esse blog abandonado (sim, vou tentar voltar a escrever In Real Life), mas estou pensando em convidar a bicha do Ary e o @pedrofraga pra fazerem umas resenhas e eu tacar aqui. Tenho um pouco de medo deles, por isso ainda não me decidi (eu sou o resenhista mais fofinho do mundo, se comparado aos meus evil beta-readers de estimação).

Clebynho, O Babalorixá Aprendiz

novembro 25, 2010

Existe uma prática bastante em voga no meio literário (e com especial difusão no fandom de FC e fantasia, diga-se de passagem) que é o costume de *falar bem do livro do amiguinho*. Jurei que nunca iria aderir a esse pérfido costume, mas até aí creio que seja mais porque não tenho amigos. Só me relaciono com alcoólatras semi-analfabetos, no geral. Então tá tranqs.

Mas hei de quebrar minha regra de ouro. E, como sou facinho, sucumbi por meia dúzia de cervejas. Então, é isso aí, todo mundo tem seu dia de chapa branquice: VOU FALAR BEM DO LIVRO DO MEU AMIGO.

Errr. I mean. Calma aí. Não exageremos também.

Publicado esse ano, Clebynho, O Babalorixá Aprendiz, de Leandro Muller, foi concebido em uma tarde de cerveja. E vocês sabem o que dizem por aí: as ideias que nos surgem enquanto ébrios não servem quando recuperamos a sobriedade. Pois é, ESTÃO SUMARIAMENTE ERRADOS, esses tristes fracassados. (Deixei a rima de propósito).

Clebynho surgiu da premissa de se apropriar e reescrever a fórmula de vocês-sabem-quem pra uma realidade brasileira e o contexto das religiões afro-brasileiras, mantendo a orientação infanto-juvenil da obra original. Embora a questão de “original” seja espinhosa – e irrelevante – por aqui, Clebynho é tão cópia de Harry quanto Romeu e Julieta é cópia da Giulietta e Romeo de Matteo Bandello, por exemplo.

Ainda assim, nobres defensores da altivez de nossa literatura irão se manifestar, e a eles digo que podem muito bem cheirar meu ovo.

De cara, Clebynho tem uma pegada mais infanto do que juvenil. A condução da narrativa vai parecer bem familiar aos fãs de J. K. Rowling. Em diversos momentos, a reescritura, que pode a princípio parecer uma mera transposição, toma ares de paródia – embora essa claramente não seja a proposta do autor, que está mais próxima de uma “recontextualização”.

Clebynho é uma criança do subúrbio do Rio, oprimido pela tia-avó e sua ditadura da “ciência”, uma ciência estéril, que bane qualquer fantasia. Até – tcharam – receber a convocação para estudar na escola mágica de Peji Ag-Baji. É moleza chegar lá, você toma o trem lá na Central e salta em Realengo. Sem frescura. Lá, Clebynho e seus novos amigos são divididos entre as linhas de estudo, que aqui têm como patronos escritores consagrados do nosso combalido cânone (olha a derrocada aí). Clebynho vai parar na linha de Ayié, com Machado de Assis como patrono, caláro.

Daí pra frente, sem querer adiantar muita coisa, a história se desenrola com as aventuras de Clebynho e cia, até o esperado clímax – sim, as forças do mal querem invocar o suposto arqui-inimigo Exu Penhauer.

Gostei muito da ambientação calcada nas religiões afro-brasileiras. Desde o uso do idioma iorubá até a maneira como o Leandro deixa implícito que o Exu *não* é mau e *não* deve ser encarado como vilão – tema que o autor pretende abordar mais a fundo nos livros posteriores.

E – PAUSA DRAMÁTICA – TEM UM PEIXE-BOI VAMPIRO – PAUSA PRA RESPIRAR.

Outro ponto altíssimo do livro: não tem um esporte inventado ESCROTO com regras completamente SEM SENTIDO E ESTÚPIDAS.

Agora vamos criticar, que se não a casa perde credibilidade. Pessoalmente, achei o clima do livro um pouco infantil demais, o tom às vezes beirando um caráter pedagógico, com o Clebynho sempre se esforçando para fazer “a coisa certa” e tudo mais. ObÓvio que em um livro voltado para o público infantil esperam-se personagens menos “cinzas”– então não sei dizer até onde isso realmente é um defeito – mas a mim, adulto e amargo, soou forçado. Já comentei com o Leandro, que me respondeu que a ideia é fazer o Clebynho amadurecer aos poucos e ir tornando a sua história mais complexa e independente da sombra do alterego British. Estou ansioso pra ver, sinceramente acho que a série (sim, há outros livros planejados) só tem a ganhar.

E estou ansioso também pra ver quando vão aparecer zumbis (zumbi + macumba = tudo a ver).

O crossover entre o Brás Cubas Zumbi (aka Zumbrás) e o Clebynho já está planejado. Clebynho precisará de umas aulas de reforço de português e fará um ebó boladão pra invocar o professor particular mais extraordinário de todos os tempos: o Brás Cubas zumbi, claro, que, de vez em quando, para complementar a renda proveniente dos direitos autorais de suas Memórias (as Póstumas e as Desmortas), dá aulas particulares para os alunos de Peji Ag-Baji.

Adios, bitches

(NP: Roberta Sá & Trio Madeira Brasil, Orixá de frente)

Mais Zumbrás (de leve)

novembro 19, 2010

Bom, passada a derrocada, já está mais ou menos na hora de começar a colher (alguns) frutos, e mostrar por aqui.  Seguem as resenhas que saíram sobre o Memórias Desmortas (se eu esqueci alguma, avisem, sou meio desleixado pra caralho mesmo):

Pelo @JotaFF na Toca do Jota

Pela dear @anacarolinars no Leitura Escrita

No Arena Fantástica

Pelo @leotriandopolis no  Liber Imago

E o @ALuizCosta resenhou o Cyberpunk – Histórias de um Futuro Extraordinário em sua coluna na Carta Capital. O meu conto é meio drogas (e provavelmente vai desagradar os fãs mais conservadores), mas eu fico feliz que ele tenha sacado o espírito da brincadeira. Leiam aqui.

E a @Anacriscrod falou um pouco sobre essa suruba entre os rótulos mashup e ficção alternativa. Já que ninguém ainda inventou a nomenclatura oficial, a galerinha por aí já tá chamando urubu de meu louro. Vai lá no FC e Afins .

Updeitarei essa joça em breve (riight, quem eu quero enganar? – mas juro que tentarei), porque sinto que é meu dever traçar algumas linhas sobre o (já) clássico Clebynho: O Babalorixá Aprendiz, do genial Leandro Muller e, posteriormente, sobre o novo épico megalomaníaco do Brandon Sanderson, The Way of Kings, que estou terminando de ler (mas que nunca acaba, é bizarro).

Ah, e criei um Formspring – pra variar, com anos de hype atrasado – só pra ter outra coisa pra não atualizar na internet: http://www.formspring.me/nerdquest

Bjundas!


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