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Jabá, rádio e lhamas

fevereiro 13, 2006

A revista Veja, meses atrás, publicou uma reportagem interessante sobre a prática do jabá pelas gravadoras dos EUA. É algo fora da realidade pra nós ler que lá fora os jabazistas estão sendo devidamente punidos, com multas de alguns milhões de dólares aplicadas às gravadoras e às rádios que aceitam essa nefasta prática. Surreal, já que enquanto isso, aqui no Rio (e no Brasil), as gravadoras dão iPods de presentes aos felizardos jornalistas e DJs que foram agraciados com o trabalho de escutar o CD novo da filha da Elis Regina.

Mudando o referencial geográfico.

Quando estive no Chile, tinha o costume de passar o dia todo com la radio prendida. Do outro lado da cordilheira eles têm rádios para todos os gostos possíveis, chega a ser impressionante a variedade de estilos que se escutam nas rádios santiaguinas. Desde o metal alternativo que não toca em rádios normalmente, tipo Tool; até progressivo, como Marillion, ELP e Flower Kings. Sem contar que se ouve muito rock alternativo inglês, Suede, Pulp e a maioria das bandas indies bombam. E até dá pra escutar coisas mais inusitadas, como Warrant. Tudo isso nas rádios.

E em algum momento escutei uma banda chilena que tocava bastante e era uma versão em espanhol do Blink. Por mais que eu não seja lá muito fã, a letra era engraçadinha e me interessei em buscar o CD.

A resposta que ouvi foi: “vai ter que ver no site ou em show, porque essa banda é independente.”

Minha reação automática foi: “Como assim?!”, estava dirigindo e quase joguei o carro em cima de uma simpática lhama que atravessava a rua pastando tranquilamente.

(Tá, não existem lhamas pastando nas ruas de Santiago, pra minha enorme decepção. Quase processei o governo chileno por propaganda enganosa, mas descobri que era tudo produto de alguma fantasia doentia minha. Bom, eles também acham que nós temos gangues de macacos saqueando as pessoas, então estamos quites).

Tipo, como assim uma banda independente estava com um single tocando desvairadamente no rádio? Eles tinham lá os seus contatos, claro, todo mundo tem. Mas a música tocava no rádio quase como se fosse a nova do CPM22 na Rádio Róqui do Rio.

Levantei essa questão, com meu portunhol indefectível, e chegamos a algumas conclusões após uma análise minuciosa. Nem tudo são flores no país de Neruda e Allende, tem muito lixo lá também, que nem aqui. Tem bandas de Axé com espírito super-brasileiro, tem Alexandre Pires em espanhol (o cara é o rei das empregadas lá também), tem – acreditem no seu colunista favorito – Kelly Key e Eguinha Potocó, essa última tocada por uns gaiatos que certamente não estavam pagando direitos autorais pro “compositor” da “canção” original.

Entretanto, o mercado chileno é minúsculo se comparado ao brasileiro, portanto me disseram que as gravadoras deveriam ser menos gananciosas. Acho isso um pouco ingênuo, mas tudo bem. Ao mesmo tempo, existe um mínimo de crédito, dado pelas rádios em geral, ao cenário alternativo/independente. E, por último, lá se rouba, mas se rouba mais moderadamente. Claro que existe jabá, mas explicar que se deve a diferença do tamanho do mercado é muito simplista. O Chile inteiro cabe em São Paulo, mas por isso as gravadoras iam deixar de se esforçar pra empurrar seus peixes, especialmente lá, que o mercado proporcional de rock é bem maior que aqui?

(Estou falando especificamente de rock porque é a única porcaria que eu ouço, não posso falar do jabá nas rádios de música erudita medieval).

Bom, estamos no Brasil. Fazer o quê? Aqui não temos escrúpulos para praticamente nada, seja o mensalão do governo ou o mensalinho das gravadoras. Como já dizia Pero Vaz de Caminha, “nesta terra, em se plantando tudo dá”, e todo mundo quer alguma migalha da torta, seja o DJ que vai tocar a nova do Los Hermanos até nossos ouvidos sangrarem, sejam as gravadoras que vão estar empurrando qualquer bosta que tenha um bom produtor por trás e um refrão assoviável.

O que fazer para tentar policiar essa mamata? Eu li em algum lugar uma sugestão interessante –

(Interlúdio. Oitenta por cento do que escrevo, eu li em algum lugar ou ouvi alguém comentar. Apenas reproduzo e fico com o crédito pra mim, enquanto todos vocês acham que eu tenho idéias super originais. Fim do interlúdio).

– A sugestão era legalizar o jabá. Anunciava-se na rádio o “Horário do Jabá” (com aquele barulhinho de caixas registradoras no fundo, pra ficar estaile) e pronto, tocava logo meia hora seguida de Felipe Dylon.

Depois dessa meia horinha (e de um surto de suicídios em massa na cidade) a rádio podia seguir a programação normal.

Assim, as rádios não abririam mão de seus presentinhos e nós seríamos menos lesados. Talvez desse modo esses desgraçados não tocassem a mesma merda o dia todo. Talvez não, sei lá.

Nem sei por que eu me preocupo tanto, nunca vai tocar Frank Zappa na rádio mesmo.

Bah.

(Mais um texto escrito para o pseudo-site de música da minha estimada amiga Mariana. Meus delírios de crítico musical se acentuavam cada vez mais, infelizmente o site morreu mesmo. Pelo menos eu tenho algum material pra postar aqui. A propósito, a bandinha punk se chama Tronic e a musiquinha q tocava na rádio era Otra Vez. Besitos a todos.)