Tolkien e um jovem mancebo nerd

O último post (sobre a ‘literatura’ de fantasia farofa/comercial) me fez pensar um pouco sobre Tolkien, em especial nos dois ‘olhares’ diferentes que eu tive do Senhor dos Anéis.

Eu explico. Li o livro pela primeira vez com 11 ou 12 anos, aquele jovem Pedrinho ainda era um leigo mancebo nos mistérios nerds; fã da Espada Selvagem de Conan, dos X-Men clássicos de Chris Claremont, dos livros-jogos Aventuras Fantásticas e, obviamente, de RPGs em sua concepção básica e primordial: matar monstros e roubar as coisas deles.

O que o espinhento guri assexuado esperava em um livro que era considerado a bíblia da literatura de fantasia? Vamos lá, vou enumerar:

1) Tal qual Conan, era imperativo haver pelo menos um personagem sinistro, que encarasse geral no braço e ainda passasse o rodo na mulherada. O que o guri encontrou? Frodo e Sam. Embora ingênuo, o jovem rapazote sabia identificar viadagem quando ela se apresentava de modo tão escancarado.

2) Como um fã hardcore dos X-Men, aquele crédulo garoto esperava uma trama insanamente complicada, com zilhões de personagens aleatórios, mortes apocalípticas (ok, checked), clima barrados no baile e pegação (veja bem, não entre indivíduos do mesmo sexo, e, por favor, nem entre indivíduos de raças diferentes, porque Legolas e Gimli não contam!). E, por fim, mas mais importante do que todo o resto, o Wolverine. Sim, para o jovem Pedro gostar era imprescindível que tivesse o Wolverine.

3) Os nerds mais seminais irão se lembrar eternamente dos livros-jogos Aventuras Fantásticas, afinal, eles sintetizavam perfeitamente o conceito primordial do RPG: matar monstros e roubar suas coisas. Ao ler um grande épico de fantasia, eu quero que o grupo de heróis mate monstros e roube suas coisas! Por mais nobre que seja a sua missão – jogar um anel em um buraco grande e fumegante – todo herói deveria ter tempo para uma prosaica matança seguida de uma descontraída pilhagem. Se eu criasse os cânones da literatura de fantasia farofa, isso estaria entre os mandamentos.

4) E, finalmente, porrada com o boss. Tipo, era necessário que existisse um chefão do mal e que no fim os heróis se juntassem pra embotar de cacete o tal final boss. Parecia ilógico ao infante Pedro que aquele grupo de heróis não fosse juntar de pancada no Sauron. Ou pelo menos nos Nazgul, em um combate eletrizante e caótico, tipo X-Men vs Irmandade dos Mutantes, e ainda desenhado pelo Dave Cockrum.

Sim, o infante Pedrinho se decepcionou com o livro.

Mas o infante Pedrinho cresceu. Conheceu Sandman e os contos de Robert E. Howard (criador do Conan), é fã dos X-Men do Grant Morrison, leu algo de literatura não-nerd (o que minha porção intelectual detesta admitir que é necessário) e, o que é um alívio, não teve nenhum distúrbio sexual advindo das relações doentias entre Legolas e Gimli (até então, pelo menos).

O Pedro adulto (e esse sou eu) leu a trilogia novamente, com uns 20 e poucos anos, e a recomendaria para qualquer um. Quando você é um pivete, babando no decote fisicamente improvável da Jean Grey, não está exatamente apto a usufruir completamente de certas sutilezas. Por exemplo, como entender a relação entre o Frodo e o Sam, sendo um pré-adolescente mongol que se diverte desenhando pirus nas cadeiras dos colegas? Ou como entender que não poderia haver melhor solução para o combate entre Gandalf e Balrog, se você está acostumado ao exagero narrativo do cinema-farofa e das HQs da Marvel?

Eu ainda me divirto (seriamente, admito) com a high fantasy de A Song of Ice and Fire e outros genéricos enfarofados de Tolkien, mas tenho discernimento suficiente pra saber que não dá pra botar na mesma sacola que O Senhor dos Anéis, é inviável comparar.

Por isso, recomendo que leiam A Song of Ice and Fire (ver post anterior para mais detalhes) e se divirtam, e não deixem de ler O Senhor dos Anéis. Mas, se me perguntam o que vale a pena reler e reler (e reler), fique com Tolkien e o anel no buraco fumegante.

De qualquer maneira, até hoje a minha única ressalva ainda é a ausência do Wolverine.

/me imaginando o Wolverine (com o uniforme marrom, claro) retalhando aqueles Nazguls safados em tirinhas, tudo desenhado pelo Dave Cockrum, naturalmente.

(np: Porcupine Tree – Pure Narcotic)

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Uma resposta to “Tolkien e um jovem mancebo nerd”

  1. Bruh Says:

    Tudo que disse no msn. Respeito demais Senhos dos Anéis, pelo alcance absurdo, pela criatividade, pela inteligência da obra. Mas não faz meu tipo. Acho que estacionei na pré-adolescencia e no “mate o monstro e roube suas coisas”. 😀

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