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Coisas Legais que Vocês Deveriam Ler

abril 26, 2010

Mais um post sobre Coisas Legais Que Vocês Deviam Ler (Ou Não). E não vou sequer tomar cuidado pra focar em algum gênero ou outro, vou salpicar aleatoriamente livros que tenho lido e falar alguma merda a respeito.

Annabel e Sarah, Jim Anotsu. Esse é o primeiro livro de um autor – brasileiro, apesar do pseudônimo istáile – que escreveu a bagaça durante o ensino médio e está começando a faculdade de Letras agora (pobre diabo…). Fiquei bastante curioso pra dar uma lida no livro, a sinopse é ótima e ainda surgiram algumas comparações com Neil Gaiman (olha a responsa). As personagens do título são duas irmãs gêmeas, Annabel – a menina revoltadinha alternativa, melhor estilo rebeldia adolescente – e Sarah – a patricinha fútil, ao mesmo tempo meiga e amável. Um belo dia, em um acidente bem Alice no País das Maravilhas, as duas vão parar em mundos fantásticos e daí pra frente nós acompanhamos as odisseias de ambas, separadas, tentando se reencontrar e escapar, de volta para o mundo real.

Vou bater um pouco, antes de assoprar.

Coisas que me incomodaram: (a) a síndrome de Juno (estou falando do filme, para os mais velhos também é a síndrome de Dawson’s Creek). Quer dizer, as meninas parecem muito mais maduras e articuladas do que deveriam ser, especialmente Annabel com a sua postura de geniazinha precoce. Às vezes os diálogos ficam estranhos por conta disso. (b) Algumas referências soam forçadas, especialmente as em relação à cultura beat, que são amontoadas meio em excesso. E outras parecem incongruentes, como a menina de 15 anos ir em um show (e gostar) de Black Label Society, por mais alternativa revoltadinha que ela seja (nem entro no mérito quanto a achar o Zakk Wylde um gato, porque tem gosto pra tudo). (c) As meninas tem pouca ou nenhuma personalidade, fora o óbvio. A patricinha é fresca e não fica com nerd, a alternativinha é debochada e anti-social. Aliás, no começo a Annabel é tão metida a besta que eu tava torcendo pra Sarah surtar e virar a mão na orelha dela.

Coisas que achei legais: (a) O que falta em character development sobra em ritmo. A trama não fica entediante e evolui com naturalidade, rápida, mas sem parecer apressada ou corrida. Facílimo de ler, mesmo nas partes menos inspiradas. (b) As referências à cultura pop são bem legais. Naturalmente, eu não sou a pessoa mais indicada pra criticar referências à cultura pop – ahm? Nerdquest? –  mas o autor deixa claro como o acervo de referências é o que define as personagens, Gossip Girl para Sarah, Ian Curtis para Annabel.  (c) Algumas ótimas ideias salpicadas ali e acolá, tipo traficantes de infelicidade, porra, genial. (d) Os interlúdios são onde as personagens mais “crescem”. Meu capítulo favorito é a cena (meio piegas, admito) em que a Annabel e a Sarah têm um momento de companheirismo inusitado.

Coisa que realmente não gostei: o final enfarofado da Disney. Sem spoiler, claro, você vai ter que ler pra decidir se gosta ou não. Como diz a Ana Carol, eu sou uma pessoa amarga, não conto (haha).

Jim Anotsu é talentoso e – por mais que Annabel e Sarah não seja perfeito – espero para ver outros trabalhos, mais maduros, dele. Isso se a faculdade de Letras não ferrar com a cabeça do moleque, claro. Hehe.

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World War Z, Max Brooks, é algo que devia ser lido por todos vocês. É uma compilação de depoimentos de sobreviventes do apocalipse zumbi.

De cara, já ficamos sabendo que a infestação zumbi foi uma catástrofe global, mas está relativamente controlada. Através dos testemunhos o autor constrói um belo panorama do Dia Z, desde os primeiros ataques, passando pela disseminação mundial da epidemia e até a sua contenção. O livro é ótimo e o autor consegue criar uma sequência bastante verossímil de eventos e reações do que realmente VAI ACONTECER QUANDO OS ZUMBIS ATACAREM. É bom a gente ficar esperto.

Alguns depoimentos se destacam. O da K-9 Corps (os cães treinados para invadir as áreas dominadas por zumbis) é mais touching do que uns dez Marley e Eu. O depoimento falando sobre os castelos medievais usados como refúgio contra as hordas mortas-vivas é sensacional – me fez lembrar da cidadela de Sighişoara, que eu e a Gorda visitamos na Romênia. Fato que dava pra se proteger dos zumbis na moral lá. Ao mesmo tempo, tem uns depoimentos bem mais fracos. O que se passa no Brasil é divertido, embora a pesquisa do autor não tenha ido muito além de ter assistido Cidade de Deus (o que sucks a lot, mas não tira o mérito do livro).

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Persuasion, Jane Austen. Austen é aquele negócio. É tipo um velho amigo, daqueles que você passa anos sem encontrar, mas quando esbarra com ele no boteco sabe exatamente o que esperar. E pensa “putz, por que diabos fiquei tanto tempo sem ver esse mané?”. Austen é sempre mais ou menos a mesma coisa, mas é foda anyway. Estou mantendo o ritmo de ler um Austen por ano. Mansfield Park é o próximo da lista.

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Dreamsongs, George R. R. Martin. Na verdade não terminei de ler o calhamaço ainda, queria falar especificamente de um conto, o A song for Lya. Infelizmente não tem como entregar a fodice do conto sem esplanar spoilers do plot. Basicamente, dois investigadores com poderes psíquicos chegam a um planeta para descobrir a verdade por trás de um culto religioso esdrúxulo, baseado em uma criatura-fungo bizarra que só é encontrada naquele planeta. O mais foda no conto é o intertexto com o poema “Dover Beach”, de Mathew Arnold. As questões religiosas/metafísicas/espirituais do poeta vitoriano são perfeitas para ilustrar o estranhamento dos dois telepatas com o culto à criatura. Uma boa mensagem in your face pra quem acha que os escritores de ficção científica não precisam ler os textos canônicos. Até agora é sem dúvida o ponto alto da antologia do Martin.

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Tenho algumas novidades pra postar por aqui e postarei-as em breve, quando der na telha. Bjundas!

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One life furnished in trash by Image Comics

abril 12, 2010

Essse post (e vocês provavelmente viram pelo título) é baseado no conto do Neil Gaiman One life furnished in early Moorcok. O Fraga contribuiu com o insight via MSN (vocês iam se surpreender com a porcentagem ínfima de ideias que eu efetivamente tenho. Eu roubo coisas dos outros).

Isso vai ser uma mistura de relato, essay, memoir. Sei lá. Your call.

Aos onze anos eu era um nerd promissor. Sério, aquele moleque freak que os adultos achavam que era superdotado (HAHA, quanta ingenuidade), só porque havia lido uma porrada de livros sem desenhinhos. Senhor dos anéis, Fundação, Campo de batalha Terra, Brumas de Avalon. Eu juro que estava trilhando um caminho promissor – sério, nesse ritmo estaria lendo Ulisses aos 18.

(Tá, tô zoando, né? Mas captou o espírito?)

Eu já era viciado em HQs. Mas era um lance saudável, saca? Tipo só beber no fim de semana. Lia X-Men do Chris Claremont, o Conan do Roy Thomas, Vingadores da Costa Oeste do Bryne, Hulk do Peter David. Entre outros, vários outros. Mas ainda saudável.

Um belo dia, veio a Image Comics. Eu e meus amigos nerdizinhos ficamos insanos com aquilo. A gente já lia Marvel e DC há anos e de repente surgia todo um novo fucking universo de heróis. E o mais importante: era A MESMA MERDA, MAS DIFERENTE.

E sabe por que era diferente? A gente podia acompanhar desde o começo. Eu sei que isso parece meio estúpido agora, hoje em dia existem inúmeras editoras independentes com seus próprios universos e mesmo a Marvel e a DC têm trocentos universos caça-níqueis (na época eu acompanhava o Universo 2099 da Marvel, no máximo). Algumas séries da Image lançaram até edições número ZERO, não dava pra ficar mais “íntimo” de uma série do que isso. Era promissor. SÉRIO, EU JURO QUE NA ÉPOCA ERA.

Eu tenho todos os primeiros números – em inglês – de WildC.A.T.s, Cyberforce, Condename Strikeforce, Stormwatch, Wetworks. TODAS ESSAS MERDAS.

Então, na época que deveria estar adquirindo uma bagagem mais ampla de leitura, eu estava lá amarradão acompanhando cópias genéricas da Psylocke se engalfinhando com cópias genéricas do Wolverine. E achando tudo aquilo SENSACIONAL. Culpa de todo aquele exagero narrativo – tudo pasteurizado, pra assimilação fácil e cômoda. Um bando de ideias já esgotadas pelas editoras tradicionais sendo re-esgotadas por uma editora que posava de revolucionária. E o máximo de revolucionário eram as capas laminadas e mulheres seminuas (ou nuas – desde que os mamilos não aparecessem, tava valendo).

(Quando eu digo que não é pra levar minhas opiniões a sério, o que me vem à cabeça são os caixotes de revistas da Image enfiados no armário. Um dia vou jogar essa merda fora, eu juro)

E isso fez maravilhas pelo meu senso crítico. Hoje em dia eu desprezo toda aquela porcaria (exceção óbvia para os Wildcats do Alan Moore e o Stormwatch do Warren Ellis), mas admito que um dia achei aquilo tudo a coisa mais foda do universo. Provavelmente foi por culpa da Image que eu enfiei na cabeça que queria desenhar quadrinhos e acabei em uma faculdade de Desenho Industrial (em outras palavras, o meu maior FAIL em termos de vida, you know).

Mas sem ressentimentos.

Quando aquela febre passou e eu voltei, aos poucos, a ler literatura, as coisas mudaram. Estava mais malandro e mais exigente. Desdenhava as novelzinhas de Dragonlance que teria adorado alguns anos antes. E logo comecei a ler Wheel of Time e minha vida acabou (mas isso já é outra história).

Adoro encontrar culpados. Depois do RPG, foi a Image que arruinou minha vida. Talvez eu estivesse lendo Pynchon aos 18 anos se não tivesse começado a ler Cyberforce aos 15. É A VIDA.

(Olha o exagero de novo, mas vocês captaram. Vocês devem ter passado por esse “processo” de alguma maneira similar, a Image é o meu bode expiatório pessoal.)

E sabe o que é pior? Toda vez que tentam alguma reformulação caça níquel do universo Image (da Wildstorm, especialmente), eu estou lá. Vou ler pra checar o que fizeram.

Sim, sou uma puta imunda. YAY!

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Não sei se era exatamente isso que o Fraga tinha em mente quando proferiu a máxima “A Image arruinou nossas vidas” no MSN. Mas se não foi (vai ver ele foi estuprado por um negão parecido com o Maul dos Wildcats), ele que escreva um post sobre o assunto.

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A ideia é voltar a atualizar esse blog. Vou postar algumas resenhas de coisas que li mais ou menos recentemente (a saber: World war Z, Dreamsongs, The brief and wondrous life of Oscar Wao, Dreaming in Cuban, Persuasion, Annabel & Sarah, etc) e continuar roubando ideias dos outros no MSN para posts caôs como esse.