Coisas Legais que Vocês Deveriam Ler

Mais um post sobre Coisas Legais Que Vocês Deviam Ler (Ou Não). E não vou sequer tomar cuidado pra focar em algum gênero ou outro, vou salpicar aleatoriamente livros que tenho lido e falar alguma merda a respeito.

Annabel e Sarah, Jim Anotsu. Esse é o primeiro livro de um autor – brasileiro, apesar do pseudônimo istáile – que escreveu a bagaça durante o ensino médio e está começando a faculdade de Letras agora (pobre diabo…). Fiquei bastante curioso pra dar uma lida no livro, a sinopse é ótima e ainda surgiram algumas comparações com Neil Gaiman (olha a responsa). As personagens do título são duas irmãs gêmeas, Annabel – a menina revoltadinha alternativa, melhor estilo rebeldia adolescente – e Sarah – a patricinha fútil, ao mesmo tempo meiga e amável. Um belo dia, em um acidente bem Alice no País das Maravilhas, as duas vão parar em mundos fantásticos e daí pra frente nós acompanhamos as odisseias de ambas, separadas, tentando se reencontrar e escapar, de volta para o mundo real.

Vou bater um pouco, antes de assoprar.

Coisas que me incomodaram: (a) a síndrome de Juno (estou falando do filme, para os mais velhos também é a síndrome de Dawson’s Creek). Quer dizer, as meninas parecem muito mais maduras e articuladas do que deveriam ser, especialmente Annabel com a sua postura de geniazinha precoce. Às vezes os diálogos ficam estranhos por conta disso. (b) Algumas referências soam forçadas, especialmente as em relação à cultura beat, que são amontoadas meio em excesso. E outras parecem incongruentes, como a menina de 15 anos ir em um show (e gostar) de Black Label Society, por mais alternativa revoltadinha que ela seja (nem entro no mérito quanto a achar o Zakk Wylde um gato, porque tem gosto pra tudo). (c) As meninas tem pouca ou nenhuma personalidade, fora o óbvio. A patricinha é fresca e não fica com nerd, a alternativinha é debochada e anti-social. Aliás, no começo a Annabel é tão metida a besta que eu tava torcendo pra Sarah surtar e virar a mão na orelha dela.

Coisas que achei legais: (a) O que falta em character development sobra em ritmo. A trama não fica entediante e evolui com naturalidade, rápida, mas sem parecer apressada ou corrida. Facílimo de ler, mesmo nas partes menos inspiradas. (b) As referências à cultura pop são bem legais. Naturalmente, eu não sou a pessoa mais indicada pra criticar referências à cultura pop – ahm? Nerdquest? –  mas o autor deixa claro como o acervo de referências é o que define as personagens, Gossip Girl para Sarah, Ian Curtis para Annabel.  (c) Algumas ótimas ideias salpicadas ali e acolá, tipo traficantes de infelicidade, porra, genial. (d) Os interlúdios são onde as personagens mais “crescem”. Meu capítulo favorito é a cena (meio piegas, admito) em que a Annabel e a Sarah têm um momento de companheirismo inusitado.

Coisa que realmente não gostei: o final enfarofado da Disney. Sem spoiler, claro, você vai ter que ler pra decidir se gosta ou não. Como diz a Ana Carol, eu sou uma pessoa amarga, não conto (haha).

Jim Anotsu é talentoso e – por mais que Annabel e Sarah não seja perfeito – espero para ver outros trabalhos, mais maduros, dele. Isso se a faculdade de Letras não ferrar com a cabeça do moleque, claro. Hehe.

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World War Z, Max Brooks, é algo que devia ser lido por todos vocês. É uma compilação de depoimentos de sobreviventes do apocalipse zumbi.

De cara, já ficamos sabendo que a infestação zumbi foi uma catástrofe global, mas está relativamente controlada. Através dos testemunhos o autor constrói um belo panorama do Dia Z, desde os primeiros ataques, passando pela disseminação mundial da epidemia e até a sua contenção. O livro é ótimo e o autor consegue criar uma sequência bastante verossímil de eventos e reações do que realmente VAI ACONTECER QUANDO OS ZUMBIS ATACAREM. É bom a gente ficar esperto.

Alguns depoimentos se destacam. O da K-9 Corps (os cães treinados para invadir as áreas dominadas por zumbis) é mais touching do que uns dez Marley e Eu. O depoimento falando sobre os castelos medievais usados como refúgio contra as hordas mortas-vivas é sensacional – me fez lembrar da cidadela de Sighişoara, que eu e a Gorda visitamos na Romênia. Fato que dava pra se proteger dos zumbis na moral lá. Ao mesmo tempo, tem uns depoimentos bem mais fracos. O que se passa no Brasil é divertido, embora a pesquisa do autor não tenha ido muito além de ter assistido Cidade de Deus (o que sucks a lot, mas não tira o mérito do livro).

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Persuasion, Jane Austen. Austen é aquele negócio. É tipo um velho amigo, daqueles que você passa anos sem encontrar, mas quando esbarra com ele no boteco sabe exatamente o que esperar. E pensa “putz, por que diabos fiquei tanto tempo sem ver esse mané?”. Austen é sempre mais ou menos a mesma coisa, mas é foda anyway. Estou mantendo o ritmo de ler um Austen por ano. Mansfield Park é o próximo da lista.

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Dreamsongs, George R. R. Martin. Na verdade não terminei de ler o calhamaço ainda, queria falar especificamente de um conto, o A song for Lya. Infelizmente não tem como entregar a fodice do conto sem esplanar spoilers do plot. Basicamente, dois investigadores com poderes psíquicos chegam a um planeta para descobrir a verdade por trás de um culto religioso esdrúxulo, baseado em uma criatura-fungo bizarra que só é encontrada naquele planeta. O mais foda no conto é o intertexto com o poema “Dover Beach”, de Mathew Arnold. As questões religiosas/metafísicas/espirituais do poeta vitoriano são perfeitas para ilustrar o estranhamento dos dois telepatas com o culto à criatura. Uma boa mensagem in your face pra quem acha que os escritores de ficção científica não precisam ler os textos canônicos. Até agora é sem dúvida o ponto alto da antologia do Martin.

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Tenho algumas novidades pra postar por aqui e postarei-as em breve, quando der na telha. Bjundas!

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Uma resposta to “Coisas Legais que Vocês Deveriam Ler”

  1. Jim Anotsu Says:

    Já estou meio e completamente ferrado das idéias. Fuck!
    É isso aí cara, valeu a resenha mesmo e muito obrigado.
    ATÉ MAIS!

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