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Mais coisas legais para ler e/ou os meus livros de 2010

dezembro 20, 2010

O ano está acabando e minhas leituras também (pretendo deixar a literatura de lado em prol do videogame, pelo menos até o fim do ano, né). Então, como estou me forçando a atualizar esse blog chinfrim com um arremedo de regularidade, vou listar os melhores livros que eu li no ano e fazer alguns comentários randômicos.

Confederacy of dunces (Uma confraria de tolos), de John Kennedy Toole, é simplesmente genial. Já vou avisando que é bem difícil contar o plot do livro. Não acontece muita coisa, at all. O protagonista é Ignatius Reilly, um Dom Quixote ainda mais perturbado das ideias, especialista em filosofia medieval e com um radical desdém pela cultura pop – que faz com que ele vá constantemente a filmes e shows que abomina, só pra exacerbar sua raivinha (embora, mesmo com todo o desprezo pela cultura pop, ele frisa respeitar o Batman, o cara nao é bobo). O plot se resume – mais ou menos – a Ignatius fazendo de tudo para não precisar arranjar um emprego (uma vez que ele é sustentado pela mãe e foi demitido da faculdade onde trabalhou por um breve período) enquanto destila sua repulsa contra todo mundo que ele considera mongoloid (e sim, esse é o termo ofensivo que o próprio Ignatius usa).

Confederacy teria sido o livro mais foda do (meu) ano se eu não tivesse lido O paraíso é bem bacana, do Andre Sant’anna, agora em dezembro. Cheio de experimentalismos e pós-modernismos da vida, é um livro fenomenal. Através de vários narradores (e de uma narrativa aparentemente caótica, mas que de desorganizada não tem nada) conta a história de Mané, um moleque fudido da cabeça que só sabe fazer duas coisas: tocar punheta e jogar bola. Porém, assim que a narrativa começa, descobrimos que o pobre Mané está em uma cama de hospital, todo estropiado, pois se explodiu (ou se martirizou em nome de Alá) durante um jogo de seu time na Alemanha – onde fora jogar. A trajetória do menino punheteiro bom de bola até o homem bomba na Alemanha é genial, tensa, engraçada, triste, patética, de tudo um pouco – e o brilhante monólogo ensandecido nas páginas finais do livro é completamente mindfucking.

Estrela distante foi o Bolaño que eu li esse ano (mantenho a média de um por ano, pra não gastar, pô). E em todos os anos o Bolaño do ano entra na lista do que eu li de melhor. Não sei se prefiro Estrela distante ou Noturno do Chile, curti ambos imensamente. E como o Bolaño já tem hype suficiente, não preciso me alongar aqui. Leiam Bolaño, porra.

Vamos sair um pouco do mainstream e passar pra genre fiction. Não vou falar de China Miéville e Angela Carter porque (provavelmente) farei o meu mestrado sobre ambos, então tenho muuuito tempo ainda pra falar deles. Mas, fora Carter e Miéville, li pouca coisa realmente excepcional em ficção cientifica e fantasia (mas já citei o The way of kings, né?). Bom, pelo menos li Rendezvous with Rama.

Rendezvous with Rama (Encontro com Rama), do Arthur C. Clark, é daqueles livros de FC que se tornaram canônicos e – ao contrário de dezenas de outros – se mantém firme e forte contra the test of time. Não vou ficar falando aqui de livro que todo mundo conhece (ou tem a obrigação de conhecer o mais rápido possível), mas é ótimo topar com uma FC dos anos 70 que continua (bem) relevante. Mas já me alertaram pra ficar longe das continuações, e ficarei. Hehe.

E as menções honrosas que eu estou com preguiça de acrescentar: Sábado não foi o melhor livro do Ian McEwan que já li (e nem o pior), mas ainda assim tem seus momentos brilhantes; Catch-22 (Ardil 22), do Joseph Heller, por vezes parece um pouco longo demais, mas nem assim deixa de ser excelente.

E as decepções do ano ficaram para A) Boneshaker (Cherrie Priest), que é um puta de um high concept (história alternativa envolvedo a Guerra Civil americana, steampunk e zumbis!), mas é mal executado pra caralho. Narrativa frouxa, personagens rasos (e sem carisma nenhum), clichês idiotas. BAH; B) Yellow Blue Tibia, do Adam Roberts, é outro puta high concept (logo depois da 2ª Guerra, Stalin chama um grupo de escritores de ficção cientifica da URSS para conceber uma história de invasão alienígena, que seria usada como fachada para manter a URSS unida contra um inimigo comum (aliens radioativos!), assim que os EUA fossem destruídos), mas não rola também. Fora as 50 primeiras páginas (geniais), e um ou outro momento, o livro parece um conto que foi esticado para virar romance, cheio de encheção de linguiça mal engendrada.

Até o ano que vem.

(Ah, lembram-se que eu falei em colocar o Ary e o @pedrofraga pra postar resenhas trolls aqui? Nem sei se vai rolar, porque o Ary comprou um Xbox e o Fraga é uma biscate preguiçosa)

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The Way of Kings e a fantasia épica megalomaníaca

dezembro 2, 2010

Vai uma série de fantasia épica de DEZ livros? Não? Faz bem. Você parece ser uma pessoa sensata, o que não é o meu caso.

Atazanado pelo Ary (aka @tvecerveja) durante, sei lá, meses, prometi que ia dar uma chance a The Way of Kings, primeiro volume de DEZ planejados para a série Stormlight Archives, assim que estivesse com tempo sobrando. Não preciso de mais séries épicas megalomaníacas!, mas me fudi nessa. E vou explicar como e por quê.

Quando anunciaram que o Sanderson iria substituir o falecido Robert Jordan em The Wheel of Time, a curiosidade mórbida me fez comprar o primeiro volume da série Mistborn, que era uma humilde trilogia. Quase larguei Mistborn nas primeiras cem páginas.

É o seguinte: assim que começo a reconhecer aqueles clichês enfarofados da jornada do herói já me embrulha o estômago. Às vezes dá pra fazer um esforço e relevar. Em outros casos, NÃO tem como – mantenham distância do intragável Wizard’s First Rule, do Terry Goodkind, por exemplo, devo ter suportado umas 50 páginas de jornada do herói for dummies antes de vomitar meu almoço.

Mistborn começa com algumas boas ideias (um mundo de fantasia onde o “evil-dark-overlord” venceu, humanos são escravos, a terra é coberta por cinzas que nunca cessam de cair do céu, etc). Mas também aqueles clichês mongoloides já saem brotando de cara; tem uma órfã bobalhona, ela ignora que seu destino é ser star (porra, citei Lulu Santos, vou lá rasgar o cu), um mentor fodão que é a pica mais grossa do oeste ensina ela a usar seus poderes mefíticos, esplendor na relva, lantejoulas cintilantes, mimimi.

Somam-se a isso umas caracterizações de personagens que beiram arquétipos de RPG e alguns diálogos meio tronchos, nada naturais e até constrangedores.

Porra, eu li esse livro mesmo?

Pois é, como eu disse, Mistborn não é uma obra prima, mas é, tipo assim, mega divertido. Quando o clichê da órfã aprendendo a usar seus poderes some no retrovisor e o livro decola, o Sanderson mostra o potencial que tem em imprimir ritmo e agilidade em sua narrativa. O sistema de “magia” é um dos mais criativos que eu já vi – tão criativo e intricado que não me lembro como funciona, vejam só. Mas o mecanismo É engenhoso e ele usa muito bem, eu juro. E as cenas de ação são ótimas. Até os diálogos soam melhor e os personagens ficam (um pouco) mais carismáticos, a partir lá da página 100. Inclusive a órfã fica suportável, e olha que eu tenho asco de órfão (o que não se aplica a Dickens, já que os órfãos dele não são predestinados a derrotar o senhor das trevas com superpoderes mágicos).

Nunca recomendaria Mistborn pra um não-leitor de fantasia (ao contrário de, por exemplo, Temeraire, da Naomi Novik ou A Game of Thrones, do Martin, por exemplo), mas é um livro divertido e transbordando potencial, se você pensar que Sanderson era um autor iniciante (esse é só o segundo livro dele). Até comprei o próximo livro da trilogia, mas ainda nem li.

E todo santo dia que nos posicionávamos em nossa mesa cativa no Bar do anão, o Ary repetia: “Já começou a ler Way of kings? ANDA, PORRA!”.

E o Brandon Sanderson já me ganhou no prólogo. Ele começa o livro com o que faz de melhor: descrevendo uma cena de porrada frenética, com itens mágicos esdrúxulos e (mais um) sistema de “magia” freak. Pois é, ficar empolgado com cena de porrada é muito coisa de adolescente (“ó meu deus, você devia estar lendo Faulkner, jovem mestrando!”), admito. Mas fato: não tem escritor na cena de fantasia atual que descreva porrada frenética melhor que o Brandon Sanderson.

Em TWoK existem algumas dezenas de itens mágicos ancestrais espalhados pelo mundo – armaduras e espadas mágicas TENSAS, que são praticamente armas de destruição em massa. Um shardbearer (o tiozão que usa as tais shardplate e shardblade) segura na boa um exército com alguns milhares de homens. O Ary tinha me descrito como “Cavaleiros do Zodíaco com esteroides e sem escrúpulos”, uma vez que quem tem posse das shards não são honrados cavaleiros, mas nobres, no geral filhosdeputas. Não sei até onde qualquer comparação com CdZ pode ser soar positiva, mas felizmente eles não gritam nomes de golpes.

O texto do Sanderson melhorou bastante. Os diálogos estão mais articulados (mas não completamente naturais, volta e meia ele cai na tronchice dos piores momentos do Mistborn), e os personagens estão mais interessantes (embora também insista em cair em alguns clichês, especialmente nos personagens secundários). Em outras partes ele insiste em ‘remoer’ algumas questões internas dos personagens (isso acontece mais nos plots do Kaladin e do Dalinar), e dá no saco. E outro empecilho megalomaníaco é o tamanho abissal do livro. Eu li no kindle, mas o bicho tem mais de mil páginas em árvores mortas.

Porém, todos os pontos positivos que eu realcei antes estão ainda melhores. A narrativa continua bem ágil, as cenas de ação parecem descrições de combates de videogame ou anime bem escrito. O sistema de “magia” é minuciosamente estruturado, quase como se descrito para constar de um livro de regras de RPG (embora nós, leitores, demoremos a entender como o mecanismo, que vai sendo descrito aos poucos, funciona).

E, felizmente, o Sanderson deixou de lado os clichês da jornada do herói, e nenhum dos plots é engessado pela estrutura. Claro, se alguma bitch do Campbell começar a catar pelo em ovo, vai achar o que quiser. Então fodam-se anyway, pardon my French.

O melhor plot é o do Kaladin, um lanceiro que acaba (por motivos revelados posteriormente, tcharam!) sendo escravizado e indo parar como um carregador de ponte em uma guerra lá na casa do cacete, contra uma raça de ‘selvagens’ acusados do assassinato, seis anos atrás, do rei. E até o plot da menina chata (SEMPRE tem uma menina chata em livros de fantasia, isso é regra), apesar de começar meio entediante, tem seu valor e vai ficando bem interessante.

Se eu começar a descrever o mundo, essa resenha vai durar trocentos anos. Sério, são muitas ideias legais (outras nem tanto) empilhadas casualmente e sendo explicadas aos poucos (sempre na tentativa de evitar um tom didático, que torna qualquer livro uma facada no saco). Nota-se que o worldbuilding foi realmente trabalhoso, e suspeito que o que vemos em TWoK é apenas a ponta do iceberg, especialmente devido à surpresinha nos acontecimentos finais do livro. FUCK YEAH, surpresinha.

Resumindo, é o melhor livro de fantasia-épica-farofa que eu li no ano. E, novamente, é um livro para FÃS de fantasia, pra gente acostumada com as convenções, peculiaridades e idiossincrasias do gênero. Não leitores de fantasia – ou os leitores sérios e sisudos que nunca conseguiriam se divertir com um tie-in de Warhammer 40K– não vão gostar.

Eu, particularmente, achei IRADO.

PS. Semana que vem volto a deixar esse blog abandonado (sim, vou tentar voltar a escrever In Real Life), mas estou pensando em convidar a bicha do Ary e o @pedrofraga pra fazerem umas resenhas e eu tacar aqui. Tenho um pouco de medo deles, por isso ainda não me decidi (eu sou o resenhista mais fofinho do mundo, se comparado aos meus evil beta-readers de estimação).