A Dance with Dragons e uma enxurrada de flashbacks de Wheel of Time

A dance with dragons, o quinto livro da série A Song of Ice and Fire, escrito por blá blá blá blá, todo mundo que é legal já leu, portanto o que você está esperando? Não vou me alongar nos detalhes default.

Então, essa vai ser uma pseudo-resenha do A dance with dragons (doravante, ADwD). Bem moderada nos spoilers – na medida do possível. Não sei se vai ser uma resenha de facto, já que também pretendo falar de Wheel of Time. Talvez fale mais de Wheel of Time (doravante, WoT) do que do ADwD. Pois essa vai ser uma resenha emotiva. O livro me causou (e em outros sobreviventes de WoT, inclusive) flashbacks de experiências que gostaríamos de esquecer. Traumas passados. Ok, melhor admitir logo, essa resenha sequer pretende ser uma resenha, uma vez que provavelmente não vou embasar porra nenhuma – lembrando: a casa trabalha em termos completamente parciais (portanto, doravante, meu pau).

Todo mundo que é legal já conhece A Song of Ice and Fire (doravante, ASoIaF), mas nem todo mundo conhece Wheel of time. A série ficou célebre por ter sido o épico de fantasia que nunca terminou: o autor, Robert Jordan, depois de 15 anos e 11 livros, morreu antes de digitar o ponto final para acabar com todos os pontos finais. E jurando de pés juntos que lhe faltava apenas mais um livro. Do dia pra noite, o cara descobriu que tinha uma dessas doenças que aparecem em episódios do House (não, não era lúpus). E, como na vida real o bagulho é tenso, não houve House que operasse milagre. Comentei a morte dele em um post emocionado e completamente meu pau aqui

A série está nas ótimas mãos do Brandon Sanderson (já comentei sobre ele, right here).

Voltamos para ADwD e os flashbacks. Entendam: eu sofri uma terapia de choque. Saí do livro 10 de WoT e caí quase que diretamente no livro 1 de ASoIaF, sim aquele Game of Thrones que todo mundo que é parte da tchurma já leu.

Agora vamos falar do livro 10 de WoT. The eye of the world (o livro 1) era uma trama das mais simples, com um núcleo de personagens principais enxuto e um cast de coadjuvantes de luxo generoso, porém comedido. A saber: tínhamos Rand, Mat, Perrin, Egwene e Nynaeve (fuck, eu olhei na Wikipédia e ainda sei escrever esses nomes). Daí pra frente, culminando da pior maneira ever no livro 10, as coisas atingem proporções leviatãnescas. Havia livros em que um dos ex-protagonistas sequer aparecia. Livros, plural. O plot “épico” (adjetivo escroto pra caralho) caminhava inexorável pra famigerada Última Batalha: os bonzinhos contra os malvados. Sim, WoT pode ser reduzido ao maniqueísmo que todos amam, mesmo com o Robert Jordan tentando despistar a gente de vez em quando. Mas o caminho inexorável não significa que é uma fucking linha reta.

Nos últimos livros, os plots principais haviam ficado insuportáveis. Eu queria que o Mat fosse estuprado por aquela noiva dele, com um dildo Trolloc. Queria que o Perrin arrancasse o coração da Faile e desse de comer ao cigano chato pra caralho – e finalmente sapecasse a Berelain. Queria que o Rand deixasse de ser uma bichinha emo e partisse pro ultimate fight (tá, justiça seja feita, ele faz isso e ainda come geral – spoiler). Ao mesmo tempo, em cada livro o Roberto Jordão atochava uma novidade indigesta: um continente novo, uma cultura exótica, um fucking mundo dos sonhos, uma dimensão encaralhada de bicho escroto –  E ETC. E assim abria-se um plot, um mundo adicional a ser “explorado”: um plot que NO ONE COUD GIVE A FUCK. Certas coisas só ficam bem em caps e no idioma de Shakespeare.

Os plots que importavam – e faziam a história ficar interessante – eram plots coadjuvantes, porém relacionados sempre ao plot principal, ao universo básico dos 3 primeiros livros (creio que a ruptura que desencadeou a cagada toda foi a introdução dos Aiel, no quarto livro, daí pra frente cada livro teve algum bicho novo). O divertido de acompanhar eram as intrigas entre Aes Sedai, a caçada ao Black Ajah, os Asha’man ficando cada vez mais fuderosos. Entre frustrações e avanços repentinos (vide final do livro 9, que é ótimo), a série se sustenta (ou melhor, se arrasta).

E ADwD? Que tem a ver com isso? Eu mesmo já execrei WoT em todas as mesas de bar de Copacabana (sério, essas discussões são frequentes lá em Copa), e agora tô aqui tentando aliviar a barra de WoT pra espinafrar ASoIaF? Meu pau, né.

Não, filho, segura a tua onda aí. ADwD foi a primeira vez que a minha precária mente fez qualquer associação entre WoT e ASoIaF que não fosse pra comemorar o quanto ambas as séries são tãaao diferentes. A obsessão do Martin por descrever aquele Continente Chato pra Caralho que Não é Westeros e as Culturas Chatas pra Caralho que Não São as que Importam lembra amargamente a técnica Robert Jordan de dar uma valorizada no tempo de jogo. “Eu sei que você quer ver pra onde eu tô indo, mas olha aqui que bonitinho essa coisinha brilhante que o titio preparou pra você, se chama worldbuilding”, só desviando o foco. Assim, os nossos personagens prediletos se tornam um suplício: Jon, Dany (que já vinha meio chatinha de outros carnavais, btw) e o Tyrion. Bicho, o TYRION. Eu só queria que o Rand aparecesse e mandasse um balefire naqueles escravos insuportáveis e apagasse TODOS da minha mente e do plot do livro (nerdjoke, não é pra entender).

Sem contar que o livro é uma ode à Síndrome de Estocolmo (piada esta roubada do @pedrofraga, acho). Todo mundo é refém de alguém o tempo todo. Todo mundo está impotente, o Grande Plot tem a todos – metaforica e literalmente – sendo empregados em seu proveito. Rola até uma metalinguagem malandra: parece que o próprio Martin é refém do plot que ele arquitetou e não sabe resolver.

Os plots interessantes são os coadjuvantes. Os que você torce pra se repetirem são os de personagens que sequer estavam com a gente no primeiro livro. Da mesma maneira que Rand, Mat e Perrin se diluíram e perderam o foco em WoT; Tyrion, Jon e Dany se tornam meros artifícios pra garantir um sossega leão no ritmo desenfreado que a série tinha nos acostumado no livro 3 e nos melhores momentos do livro 4. Até a Arya, quando aparece, tem um clima meio WoT que me fez ter vontade de espernear: “a minha suspensão de descrença vai  aceitar qualquer porcaria que o senhor invente, Martin – não precisa se alongar no worldbuilding. NÃO MAIS”.

E – bem como em várias prestações do Wheel of Time – o livro termina com um cliffhanger tenso. E eu iria mais longe: um cliffhanger COVARDE. Funciona? Veremos. Juro que ainda não formei opinião (e olha que eu formo opinião que é uma beleza, piscou, formei opinião). Sem contar o detalhe mais alarmante: NADA indica que ele esteja demonstrando qualquer intenção de chamar os plots pra uma conversa séria, mandar um “não é culpa de vocês, é comigo”, e terminar com eles. Nisso o Martin também está encarnando o Robert Jordan: se comportando mal e esperando os plots terminarem com ele antes. Pra sair bem na foto, sei lá. Modus operandi típico, humpf. O Martin prometeu finalizar em dois livros – foi mal aí, quem sofreu Wheel of Time é bem cético no que diz respeito a essas questões, er, delicadas.

Evidente que estou decepcionado, é de longe o livro mais fraco da série. É ruim? Não. O mais fraco de ASoIaD ainda é bom. Mas soa como um eco dissonante que remete aos piores momentos de Wheel of Time – e, porra, eu fiquei traumatizado com essa parada mesmo. Anyway, meu pau. De qualquer maneira, leiam e tirem suas próprias conclusões. O próximo livro já tem nome: The winds of winter e eu acredito que o Brandon Sanderson fará um ótimo trabalho. BRINKS 😛

Só pra constar: ainda vou ler o livro 12, o livro 13 e o maldito livro 14 do Wheel of Time, vou sim. Hehe.

Obs: A resenha da Ana Carol é mais ilustrativa e menos aloprada que a minha, check it out.

Obs (1): Estou lendo The blade itself, do Joe Abercrombie, e de repente rola uma resenha aqui. Curtindo deveras.

Obs (2): Escrevendo livro novo também. Wait and see (or not, nunca se sabe).

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6 Respostas to “A Dance with Dragons e uma enxurrada de flashbacks de Wheel of Time”

  1. Ana Carolina Silveira Says:

    Sua resenha tá muito mais AWESOME que a minha.

    Mas igual eu disse pra vc em pvt, nesse livro o GRRM matou qualquer possibilidade de fechar a série no sétimo livro. Matou. Assassinou. Trucidou. Ele demorou mil-fuckin-páginas para não resolver NADA, para avançar a trama em centímetros. Ele conseguiu deixar o Tyrion chato!!!!!!

    (e não tinha me ligado na metalinguagem dos reféns. Pior que faz MUITO sentido…)

    • nerdquest Says:

      A sua resenha é uma resenha propriamente dita, né? A minha é tipo um stream of consciousness dos bate papos sobre o livro, basicamente hehe

      A frustração mesmo é a quantidade de capts sem propósito que não esse tal de worldbuilding (coisa q só serve pra “punheta de fanboy”, como vc disse).

      A observação dos reféns foi do @pedrofraga (se não foi, ele que me corrija, please), mas é MUITO pertinente. Surreal demais.

  2. Ary Says:

    “…o cara descobriu que tinha uma dessas doenças que aparecem em episódios do House (não, não era lúpus). ”

    Nunca é lupus. Nunca.

  3. gkjdaçklj Says:

    HEIN?

  4. Pedro Fraga Says:

    A minha resenha é on the go. A sensação de impotência continua firme e forte.

    Vamos ver se algo acontece a partir da página 621.

  5. Lua Maria Sinoti Says:

    Queria taaaantor ter tempo de terminar o livro 2 (q ta chaaaaato) e chegar no “melhor livro da serie”!

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