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Retrospectiva 2011 (leituras e etc)

fevereiro 3, 2012

Cedo ou tarde eu iria ter que tirar a poeira dessa porcaria de blog, não é? Aparentemente hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro, então bóra lá fazer uma retrospectivas das Coisas Legais Que Vocês Deveriam Ler Mas Não Estão Lendo Porque Ainda Não Terminaram A Trilogia Millenium.

Um dos melhores livros de fantasia que li ano passado foi Zoo City, da Lauren Beukes. A trama é bem weird, um tipo de “praga” mágica faz com que pessoas que cometem quaisquer tipo de atrocidades sejam forçadas a carregar animais como tokens de sua desgraça. É complicado explicar. É tipo os daemons do Philip Pullman, só que ao contrário (sério, não é piadinha). As criaturas são mágicas, aparecem do nada e não refletem o “crime” cometido. Você pode ter chacinado um estádio de futebol, mas nada garante que seu familiar será um tigre ameaçador. Pode ser um marreco que anda cagando como qualquer outro (marreco, né).

Ah, e os familiars também têm poderes, embora nada garanta que eles sejam úteis. O bicho-preguiça da protagonista, Zinzi December, ajuda ela a encontrar coisas perdidas (o que é cool). O livro é ótimo, um pageturner que não é apenas o pageturner da semana. E se você precisa de motivos extras pra ler, olha só que gracinha é a autora (que ganhou o Arthur C. Clarke Award, btw):

Fazia fácil e ainda mandava sms no dia seguinte.

Outro livro foda que li foi o The city and the city, do China Miéville. Eu sou baba-ovo do Miéville, admito, e acho que todo mundo tinha que estar lendo alguma coisa dele e – sim – eu te acho mongoloide (ecoando aqui o Ignatius de Uma confraria de tolos) até você ter lido pelo menos o Perdido Street Station (btw, você também deveria ter lido Uma confraria de tolos, pra entender a piada). O The city é a história de duas cidades que ocupam o mesmo espaço. “Tá”, você vai dizer, “que nem aquele livro chato do Neil Gaiman que virou uma HQ mais chata ainda”. Que nada. Vai por mim. O livro é um noir bizarro, sobre um detetive investigando um crime em um cenário completamente freak. Vai por mim, sério, tô dizendo. Achei o The city melhor estruturado e mais bem amarrado do que o Perdido (que em determinados momentos parece um amontoado desconexo de ideias geniais, e é onde o livro perde força). Ah, e também li o Kraken, que eu achei beeeeem fraco. Não dá pra acertar sempre.

Como coloquei a foto da Lauren pros meninos, pra vocês não dizerem que não tem igualdade entre os sexos nesse blog machista, vai lá uma foto do Miéville:

Admito que eu só frequento academia porque se algum dia encontrar o Miéville não quero me sentir ridículo demais ostentando minha barriga de chope.

Continuando na literatura de gênero, essa lindeza, li os dois primeiros volumes da First Law Trilogy, do inglês Joe Abercrombie. A série segue os princípios da low fantasy, tão popularizada por Aquele Que Escreve Devagar: os personagens são sujos, mijam, cospem, arrancam entranhas e socam uma gloriosa antes de dormir pra dar uma aliviada na tensão. E não tem magia farofa, deuses pintosos, dragões falantes, essas merdas. O primeiro volume, The blade itself, tem dois personagens principais que roubam a cena: um é o torturador Glokta, e o outro o playboy Jezal.

Glokta é um torturador que experimentou em primeira mão o ofício que domina, sofreu um crash course ao ser ele mesmo torturado, em uma guerra anterior, até que o seu corpo tenha se tornado um amontoado de pedaços de carne imprestáveis colados com ossos quebrados e mal curados. Uma das melhores cenas do livro é a angustiante sequência em que Glokta tenta levantar da cama ao acordar de manhã. Sério.

Jezal, por sua vez, é um nobre e bon vivant que supostamente treina para uma competição de esgrima, embora invista a maior parte do seu tempo no sagrado trinômio carteado-bar-puteiro. A cena icônica do personagem é o próprio admirando a perfeição simétrica do próprio queixo no espelho.

O segundo livro dá mais espaço para outros personagens, o que é meio chato na medida em que nenhum deles tem o carisma de Glokta e Jezal (embora eu tenha que admitir que aos poucos os bárbaros Logen e Dogman e o Major West ganharam um pouco da minha preferência também). A série não é genial de subir no caixote pra obrigar todo mundo a ler, mas vale a pena check it out.

A ficção científica mais legal que li foi Leviathan wakes, de um tal James S. A. Corey, que é basicamente um pseudônimo dos autores Daniel Abraham e Ty Franks. É uma space opera hard – nada de saltos interestelares e “time is like a big ball of wibbly wobbly… time-y winey… stuff” – com dois narradores bem distintos e ambos bastante críveis e interessantes, um oficial terráqueo de uma espaçonave e um detetive nativo de uma das estações espaciais do Cinturão de asteroides. Bate na madeira aí, mas vale a pena lembrar que o Daniel Abraham é o minion oficial do George R. R. Martin, então no caso de uma Robert Jordan situation – vocês sabem onde eu estou querendo chegar, né ? (E olha que eu não tinha gostado do primeiro volume da série de fantasia dele, The Dragon’s Path, mas felizmente o Leviathan wakes – IMO – tem tudo que The Dragon’s Path não tem).

*

Tenho mais livro pra recomendar. Mas fica pro um próximo post (ou não). Deixo vocês com a questão que caiu no vestibular da UFRN sobre o Memórias desmortas de Brás Cubas. Vejam se vocês conseguem resolver.

Cobrar na bibliografia que é bom, nada

Obviamente o gabarito é D. Mas juro que foi cogitada uma ideia nefasta – surgida no lançamento da antologia Dieselpunk, da @editoradraco, durante um shitstorm entre eu, @tvecerveja, @anadefinisterra e um maluco que eu não lembro quem era (foi mal aí) – e que seria a Coisa Mais Divertida do Universo. Se eu fosse o Ultimate Troll, escreveria um post indignado refutando o gabarito: “MAS É CLARO QUE NÃO É PARÓDIA, EU QUIS FAZER UMA PARÁFRASE DIRETA, PRA MIM ESTAVA ÓBVIO!”, só pra ver o circo pegar fogo. Sim, sim, ia ser genial, mas não sou tão espírito de porco. Hehe.

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Tá, em termos de publicação o ano passado foi fail. Só pra não dizer que eu não publiquei nada, tem um artigo sobre o Perdido Street Station, de um trabalho que apresentei no Painel de Reflexões sobre o Insólito (lá na Uerj) e outro artigo sobre dois romances pós-coloniais, o excelente Dreaming  in Cuban e o não tão excelente, mas ainda assim bem legal, Jasmine, que apresentei em um congresso em Bsb. Mas eu juro que esse ano vou tentar publicar alguma coisa. Ficção, de preferência. Sério. Novidades (ou não) em breve.

Bjundas

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