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Resenha de Jogador nº1 (Ready player one) e minha opinião sobre coisas que ninguém nunca me perguntou

abril 5, 2012

Terminei de ler semana passada o divertido Ready player one (em português, Jogador nº 1). O livro não tem muitas pretensões e deixa isso bem escancarado desde o começo. É um romance em que o personagem principal não é exatamente o Garoto(a) Underdog Em Alguma Quest Épica, como acontece em quase toda young adult novel. O protagonista de fato é a cultura pop dos anos 80 – o que já de cara diz bastante sobre esse lance de “pretensões”.

Porque Space Invaders é muito mais épico do que tacar um anel em um vulcão

Pra quem não leu nada a respeito ainda, um resumo rápido, em itens: (i) futuro pseudo-distópico (caláro), com direito a colapso econômico graças a cagadas ecológicas diversas; (ii) boa parte da humanidade é viciada em um tipo de MMORPG que faz WoW parecer o Ninja Gaiden do Nintendinho, e meio que se tornou tipo o ultimate escapismo; (iii) o criador do tal MMORPG morre sem deixar herdeiros (nerd virgem do caralho) e deixa toda sua fortuna tensa pra quem completar uma quest bizarra que ele inseriu dentro do jogo; (iv) ninguém consegue completar a porcaria da quest, até o Garoto Underdog que eu mencionei antes mandar ver na parada.

Detalhe: o criador do tal jogo era um nerd que cresceu durante os anos 80. Ele era obcecado pela própria infância / adolescência (em psicologia isso é chamado de Síndrome do Nerd Virgem, podem procurar na Wikipédia). Por isso, as quests que ele criou para testar aqueles manés valorosos o suficiente para herdar sua fortuna são referências a ícones dos anos 80 (alguns bem conhecidos e outros completamente obscuros). Beleza.

Outros escritores fazem uso de referências sem que elas ocupem o spotlight do texto (Nick Hornby e Junot Diaz são os que brotam na minha cabeça sem esforço), mas Ernest Cline (o autor do livro) não se preocupa em usar as referências pop para complementar ou enriquecer os personagens, justamente o contrário – a cultura pop dos anos 80 justifica a existência dos personagens, a partir das elaboradas quests que o autor inventa e que os personagens devem cumprir. O resto – inclusive o cenário distópico – é apenas um pano de fundo, que chega a ser entediante em alguns momentos. O leitor fica torcendo para a narrativa voltar às quests – e aos anos 80! – e pouco lhe importa o que será feito com os personagens. Tem algo errado aí.

Mas não importa se tem algo “errado” (relativizando como se não houvesse amanhã aqui, pra variar), porque é divertido. Mas-contudo-porém-entretanto-todavia, foi outro aspecto que me incomodou o suficiente pra escrever essa resenha e não apenas marcar três estrelas no Skoob e comentar o que achei com o @tvecerveja no Bar do Anão.

Estamos falando de um romance para young adults (que recebeu prêmio e o caralho, inclusive). Toda a narrativa é explorada de maneira simples – simplória – para fácil assimilação, sem se aprofundar nos personagens e optando pelo estereótipo sempre que surge a escolha, seguindo apenas uma linha narrativa onde os obstáculos – não apenas as quests em si – vão surgindo e sendo superados de maneira linear e hierárquica, como fases em um videogame vintage – o que é interessante, visto que é um romance sobre videogames e que se passa em um videogame, embora that’s not my point.  (Interlúdio: sob vários aspectos, é uma narrativa mais “simples” do que outros YAs, tipo Hunger games ou Uglies). O estranho é toda essa estrutura de assimilação rápida e preguiçosa estar construída em torno de referências à cultura pop dos anos 80: Ready player one é um paradoxo, um young adult cujo público preferencial tem mais de trinta anos.

Porra, eu tenho mais de trinta anos e boiei como água viva em boa parte das referências. (Mas isso não vem ao caso).

Sem querer ser mamilos, acredito que isso diga muita coisa sobre o mercado editorial de hoje (não necessariamente sobre os leitores, e nem sobre o escritor, que nunca vi mais gordo, mas sobre quem manda). O público “adulto” está (supostamente) cada vez mais se contentando com the easy way out – com a solução mais fácil, simples, rápida e – por falta de palavra melhor – boba. Não digo isso tomando partido de alguma causa em prol do emprego de complexas técnicas narrativas pós-modernas, que fariam com que todos os romances divertidos se tornassem textos adultamente insuportáveis, compreensíveis apenas para a meia dúzia de acadêmicos que teria saco de lê-los até o fim. De jeito nenhum, porra. Mas é como se a cultura – americana – do blockbuster do verão tenha tomado de assalto a literatura. E o problema é que, enquanto ninguém mais se lembra do blockbuster do verão passado, a literatura tem esse péssimo hábito de ficar. De marcar as pessoas e causar indeléveis danos a suas psiques. E quando o leitor adulto passa a se contentar, and I mean, sente-se plenamente satisfeito, com algo que não vai muito além de um quiz complexo sobre a cultura pop de 30 anos atrás, sim, tem algo errado. Pois o leitor mais jovem – aquele ainda começando a se deslumbrar com as coisas legais que a literatura pode proporcionar – até vai ler o livro de cabo a rabo, mas não vai possuir a bagagem ou, principalmente, os laços emocionais com o tema para captar what’s the point. Acontece que o leitor adulto deveria estar capacitado para reconhecer o “valor” (relativizando aqui, please) do entretenimento raso e tratá-lo como tal.

Concordo que entreter sempre é o objetivo principal (Shakespeare wrote for money, já disse o Nick Hornby), mas é aquele negócio – diversão por diversão é melhor ir brincar no parquinho. Tem balanço, trepa-trepa, aquele troço que roda e te deixa meio tonto. Mas o jovem leitor precisa amadurecer. Admito que sou ingênuo pra caralho (e sem contar meio idealista) e estou partindo do princípio que o leitor quer amadurecer. Sei que não é assim que a banda toca e é bem mais cômodo, tal e qual o nerd virgem criador do MMORPG de Ready player one, buscar refúgio no fácil, simples e garantido, aceitar sem questionar o que é imposto ou endossado por uma suposta maioria. Mas não.

Shakespeare escrevia por dinheiro e ainda repeliu uma invasão de bruxas alienígenas naquele episódio de Doctor Who. Melhor não contrariar o cara.

Ready player one é divertido e relevante, como homenagem a uma subcultura que começou a florescer nos anos 80 e hoje superou o prefixo “sub”. Mas sua narrativa não ousa além da vocação auto-imposta por ser o blockbuster do verão seguinte (objetivo este que foi plenamente satisfeito – os direitos do livro já haviam sido comprados antes mesmo de ele ser publicado). Mas, infelizmente, fica por aí. Se o seu público alvo já está satisfeito, não há por que explorar qualquer potencial, pois não se almeja mais que isso – dá pra se virar seguindo a fórmula confortável que é vendida como “a certa”.

Whatever, nem sei se estou fazendo muito sentido pras pessoas normais e sóbrias. A moral da história é que o livro é divertido e eu curti – mas não serve at all se o que você estiver procurando é algo além do que o conteúdo que uma partida de Culdcept no PS2 proporciona (e, sim, às vezes – pelo menos às vezes – você deveria estar procurando algo mais).

Bjundas.

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