Memórias Desmortas e a derrocada da literatura brasileira

setembro 16, 2010

ZumBrás Cubas e seus amiguinhos no Segundo Caderno

Quando o Segundo Caderno publicou a reportagem sobre a onda de paródias/mashups de clássicos da literatura brasileira, citando a coleção da Leya e com o Memórias Desmortas entrando de penetra pela porta dos fundos e roubando a cena (ok, estou exagerando, deixem-me continuar vivendo no meu fantástico mundo imaginário), eu não tinha me tocado que teria diversão garantida pro restante da tarde. Não contava com a indignação e frenesi que causaria nos comentaristas do Globo online, ou, melhor dizendo, nos tenazes defensores da pureza de nossa venerada Literatura (sacaram o L maiúsculo, né?).

Eu não consegui resistir a fazer uma seleção dos mais geniais pra postar aqui. Sério, vocês não tem ideia do quão lisonjeiro é ser considerado como responsável pela “derrocada da literatura brasileira”. Eu ia fazer réplicas engraçadinhas aos comentários, mas estou sem paciência.  Eles  falam – de maneira bastante eloquente – por si só. E, pra deixar claro, não me senti ofendido nem nada, estou achando tudo simplesmente sensacional. Inclusive já comuniquei ao meu venerável editor que a gente precisa reproduzir algum desses comentários em uma eventual 2ª edição (vai saber, né?) do Memórias Desmortas.

(Talvez em um futuro longínquo eu faça um post sério sobre o assunto, bem ou mal, estudo paródia como estratégia narrativa pós-moderna na faculdade. Mas, por enquanto, fiquem com o festival de genialidade)

Mantive os comentários anônimos, pra ninguém vir buzinar no meu ouvido. E os grifos são meus, claro. Não resisti.

“Concordo plenamente com todos que foram contra essa ideia de mau gosto, essa usurpação do talento alheio, esse desrespeito aos clássicos, essa invasão à imaginação de quem a tem(tinha). Não há desculpa para essa forma nojenta que uns ignorantes desprovidos de honra, de vergonha, descobriram de lucrar e aparecer. Isso é ridicularizar a cultura.

Blasfêmia! Blasfêmia! Blasfêmia!!!!!

“A família dos autores deveria impedir que isto aconteça e processar estas pessoas.

“Que falta de talento! Se essa gente é incapaz de escrever algo bom e original de próprio punho, que parta para outra profissão.”

“Tentar reescrevar Machado de Assis vai apenas ressaltar a sua inaptidão para a Literatura.”

“Tinha que ser proibido.

“se já está tudo pronto, para quê criar algo novo?! basta requentar! até porque não existe mais imaginação mesmo, ninguém precisa mais pensar…”

“Que barbaridade! Ja que estamos modificando estes classicos com ‘atualizacoes’, vamos entao re-pintar quadros famosos tambem, e vamos aproveitar para modificar as estatuas do Michaelangelo para adapta-las ao mundo moderno com Facebook e Twitter. Que maior falta de creatividade e’ esta! Nao mexam com perfeicao, por favor! Aqui esta uma ideia radical: escrevam suas proprias estorias,com seus proprios personagens e tente criar classicos novos ao inves de escambalhar os que ja estao na prateleira”

Má fé. Quem não tem uma idéia original para criar seus próprios personagens devia desistir da carreira.”

É a derrocada da literatura, com certeza! Povinho sem criatividade, sem expressão, procura usar as obras dos Grandes Mestres, deturpando sua obra, suas idéias. (…) É uma vergonha para o Brasil e o mundo ver um Machado de Assis na vulgaridade…

E aí? O que vocês acharam? Qual é o seu comentário preferido? Vamos votar pra ver qual entra na próxima edição do Memórias. HAH.

Só pra adiantar, eu já libero o Nerdquest pra quem quiser fazer um mashup com zumbis, ninjas ou velociraptors.

BJUNDAS!

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Fantasticon 2010, Zumbrás e Cyberpunk!

agosto 24, 2010

Agora tá valendo mesmo. Memórias desmortas de Brás Cubas já está à venda e eu vou a São Paulo fazer uma social no Fantasticon (que é outra maneira de dizer “promover o lançamento oficial” do livro).

(Para as pessoas randômicas que entram aqui procurando por sacanagem e estão perdidas, vale a explicação: o Fantasticon é um evento anual de literatura fantástica/ficção científica. Rolam diversos lançamentos, palestras, mesas, workshops and so on. Não, eu não sei se vai ter cerveja. Não, certamente não vai rolar pegação, nem vem).

Entonces, lá no Fantasticon estarei lançando o Zumbrás Cubas e a antologia Cyberpunk – Histórias de um Futuro Extraordinário, na qual publico um conto. Estarei rabiscando livros dia 28 (sábado) às 13:30. Vale a pena checar a polpuda lista de lançamentos na programação oficial do evento, porque tem muita coisa interessante (e muita coisa que não me interessa nem se vier com foto de mulher pelada, o que só significa que tem livro pra agradar todo mundo mesmo). Já escolhi o que pretendo levar (claro, se a verba permitir) e depois comento aqui (se algum dia eu tiver tempo de ler, caláro).

Por fim, a @livbrandao fez uma menção para lá de lisonjeira ao Zumbrás em sua coluna no Megazine, que eu escaniei e arremessei aqui. Prometo que não vou levar o jornal pra Uerj e ficar tirando onda no Loreninha, então aproveitem o link. Ela também cita o excelente World War Z (que eu mini-resenhei faz um tempo) e a genial série Dead Set.

E também tem perfil no skoob, cadastrado pelo @JotaFF

Como de costume, irei desaparecer. Mas volto a postar aqui quando tiver novidades sobre o lançamento carioca.

Adios!

Interlúdio

junho 28, 2010

Em julho terei livro novo circulando por aí. Pois é, eu posso não atualizar essa porra, mas continuo escrevendo escondido de vocês, longe das garras da internet. Vale a pena, às vezes.

E para quem estava se perguntando quando algum picareta iria aproveitar o hype de paródias cool que está bombando lá com os gringos, a expectativa acabou. Ta-dá. Vou publicar, pela Tarja, Memórias desmortas de Brás Cubas. Não, não é um mash-up, como a maior parte das paródias que estão pipocando por aí, é uma continuação. Pra você que sempre se perguntou o que aconteceu com o pobre Brás Cubas ao fim das Memórias póstumas, a resposta é simples: ele escapou do caixão e espalhou caos e carnificina pelo Rio Antigo machadiano.

Sério, eu juro que é divertido.

Além dessa empreitada pela paródia, a Tarja vai publicar meu conto “Instinto Materno” em sua antologia Cyberpunk – histórias de um futuro extraordinário. Essa aí eu não sei quando verá a luz do dia, mas creio que relativamente em breve. O conto é uma mistura sem pé nem cabeça de cyberpunk com candomblé y otras cositas más, o tipo de salada que vai fazer os fãs puristas do gênero chorarem em posição fetal debaixo do chuveiro (não dá pra agradar todo mundo).

Por último, mas não menos importante, tive um conto selecionado pra antologia Brinquedos mortais, organizada pelo Tibor Moricz e pelo Saint-Clair Stockler para a Draco. O conto se chama “Austenolatria” e tem séquiço, Jane Austen e um professor de literatura pervertido. O de sempre.

Por enquanto todo e qualquer instante de tempo livre que possuo está sendo investido na Copa do Mundo e em cerveja. Assim, ao findar da mesma, volto a postar aqui (provavelmente).

‘Sexy Times’ Ficcionais

maio 26, 2010

Essa é uma lista que já foi elaborada em trocentos blogs por aí – eu esqueci onde foi que vi pela primeira vez, por isso omito créditos (mas já aviso logo que não é exatamente original e já levanto a bola pra quem quiser elaborar suas listas equivalentes, esse é um assunto que seeeempre rende).

Sem ordem de preferência, listarei as cinco mulheres fictícias com as quais eu gostaria de copular. Oh yes, sexy times! Já adianto que ficarei no campo da literatura. Se passar pros quadrinhos a lista ia ter que ser dez vezes maior (eu não ia querer magoar nenhuma das minhas X-Men favoritas…).

1) Essa escolha eu admito que é óbvia, mas não poderia faltar a Cersei Lannister de A Song of Ice and Fire. Westeros é um prato cheio em termos de mulé gata, mas a Cersei tem um diferencial básico: ela é safada demais. Viram a ênfase no “demais” ? Tanto que às vezes passa de certos limites (não estou falando de nada escatológico, pelamordedeus, mas ainda assim… limites).

2) Pronto, depois da primeira escolha em que a safadeza falou mais alto, eu vou variar e ir de Elizabeth Bennet (todo mundo sabe de onde, né? Orgulho e Preconceito, com ou sem zumbis). Eu fiquei tentado a escolher outra heroína da Austen, pra fugir do óbvio. Mas quem quero enganar, né? E aposto que por trás de toda aquela castidade formal há uma ninfeta sedenta por sexo, só torcendo para que o Mr. Darcy pule toda aquela bullshit de “cortejar a dama” e vá correndo pra cima dela empinando o pirofante selvagem.

3) Sophie Fevvers, do Night at the Circus (da Angela Carter). Li esse livro recentemente, mas valeu a inclusão aqui. A Fevvers é uma acrobata que garante ser parte mulher e parte cisne, ou seja, com asas. Ela tem outros atrativos, naturalmente – foge do estereótipo mulherzinha (tendo a kind offanciful and sometimes kinky feminism”) – mas, tipo, asas SÃO LEGAIS. E ela cresceu em um bordel. Óbvio que isso limita o leque de opções, ergonomicamente falando, com as quais usufruir da escolha, mas também abre-se todo um novo leque.

4) A Camilla Lopez, de Pergunte ao Pó, é uma escolha óbvia também. O Bandini não soube mandar o approach certo, por isso fica aquela punhetação toda. E sem contar que O cachorrinho riu não é lá o melhor starter pra pegar mulher (ah, e Nerdquest é, né? Eu também não me enxergo hehe). Olha, mas se fosse comigo eu investiria com um pouco mais de inteligência na moça, que deve valer a pena.

5) O pessoal que lê O Cortiço só fala na Rita Baiana, a mulata gostosona, cheia das curvas e tudo mais, mas eu sou mais a Pombinha. Ah, a moça direita de família, levada para o mau caminho pelas influências degradantes do meio. E se rolar um ménage com a Leonie de bônus, melhor ainda.

5,5) A posição extra vai pra Condessa Krak, da série Missão Terra, do L. Ron Hubbard. Isso mesmo, a série do *pai* da Cientologia. Hubbard é um autor que eu faço questão de não reler, pois tenho alguma certeza que tombará ante a Regra dos 15 anos. Porém, lembro claramente da Condessa Krak quando ela aparece na série: roupa de couro e chicote. Impressionante como isso ajudou a moldar os meus fetiches (junto com a Baronesa, dos Gi. Joe, e, mais tarde, ambas as Rainhas do Clube do Inferno). Depois ela fica patricinha e vira namorada do mocinho, aí perdi o interesse.

Algumas personagens ficaram de fora, mas não pude fazer muita coisa. Aposto que ficaram desapontadas, uma pena.

Pensei muito em acrescentar alguma personagem do Wheel of Time, mas as mulheres do Robert Jordan tem uma coisa em comum: são chatas. Daquele tipo que pega no pé, fica mandando torpedo no dia seguinte, deixa recado no Orkut pra marcar território e depois de duas semanas você não tem ideia de como sair daquela roubada. Elayne, Aviendha, Egweyne e cia, estou olhando pra vocês. E nem comento a Nynaeve ou a Faile, essas são perigo na certa. Talvez eu escolhesse a Lanfear, mas ela seria tipo uma Cersei Lannister que pode te desintegrar a qualquer momento. Melhor não.

Pra sacanear o Ary do finado TV e Cerveja eu também fiz o top5 personagens da literatura que o Ary pegaria bêbado no carnaval (provavelmente no Bip Bip, mas vai saber): Brienne do ASOIAF (já vi ele sapecar coisa pior), Mrs Dalloway (se amarra em mulé maluca), a protagonista de Comer, Rezar, Amar (que deve ser tão sexy quanto o motor de um opala, mas bebum tá valendo, né), Lin do Perdido Street Station (cada um com seus fetiches) e o Tom Bombadil (esse vai dar uma ressaca das brabas).

Façam suas listas e podem xingar minhas escolhas nos comentários. 😛

Coisas Legais que Vocês Deveriam Ler

abril 26, 2010

Mais um post sobre Coisas Legais Que Vocês Deviam Ler (Ou Não). E não vou sequer tomar cuidado pra focar em algum gênero ou outro, vou salpicar aleatoriamente livros que tenho lido e falar alguma merda a respeito.

Annabel e Sarah, Jim Anotsu. Esse é o primeiro livro de um autor – brasileiro, apesar do pseudônimo istáile – que escreveu a bagaça durante o ensino médio e está começando a faculdade de Letras agora (pobre diabo…). Fiquei bastante curioso pra dar uma lida no livro, a sinopse é ótima e ainda surgiram algumas comparações com Neil Gaiman (olha a responsa). As personagens do título são duas irmãs gêmeas, Annabel – a menina revoltadinha alternativa, melhor estilo rebeldia adolescente – e Sarah – a patricinha fútil, ao mesmo tempo meiga e amável. Um belo dia, em um acidente bem Alice no País das Maravilhas, as duas vão parar em mundos fantásticos e daí pra frente nós acompanhamos as odisseias de ambas, separadas, tentando se reencontrar e escapar, de volta para o mundo real.

Vou bater um pouco, antes de assoprar.

Coisas que me incomodaram: (a) a síndrome de Juno (estou falando do filme, para os mais velhos também é a síndrome de Dawson’s Creek). Quer dizer, as meninas parecem muito mais maduras e articuladas do que deveriam ser, especialmente Annabel com a sua postura de geniazinha precoce. Às vezes os diálogos ficam estranhos por conta disso. (b) Algumas referências soam forçadas, especialmente as em relação à cultura beat, que são amontoadas meio em excesso. E outras parecem incongruentes, como a menina de 15 anos ir em um show (e gostar) de Black Label Society, por mais alternativa revoltadinha que ela seja (nem entro no mérito quanto a achar o Zakk Wylde um gato, porque tem gosto pra tudo). (c) As meninas tem pouca ou nenhuma personalidade, fora o óbvio. A patricinha é fresca e não fica com nerd, a alternativinha é debochada e anti-social. Aliás, no começo a Annabel é tão metida a besta que eu tava torcendo pra Sarah surtar e virar a mão na orelha dela.

Coisas que achei legais: (a) O que falta em character development sobra em ritmo. A trama não fica entediante e evolui com naturalidade, rápida, mas sem parecer apressada ou corrida. Facílimo de ler, mesmo nas partes menos inspiradas. (b) As referências à cultura pop são bem legais. Naturalmente, eu não sou a pessoa mais indicada pra criticar referências à cultura pop – ahm? Nerdquest? –  mas o autor deixa claro como o acervo de referências é o que define as personagens, Gossip Girl para Sarah, Ian Curtis para Annabel.  (c) Algumas ótimas ideias salpicadas ali e acolá, tipo traficantes de infelicidade, porra, genial. (d) Os interlúdios são onde as personagens mais “crescem”. Meu capítulo favorito é a cena (meio piegas, admito) em que a Annabel e a Sarah têm um momento de companheirismo inusitado.

Coisa que realmente não gostei: o final enfarofado da Disney. Sem spoiler, claro, você vai ter que ler pra decidir se gosta ou não. Como diz a Ana Carol, eu sou uma pessoa amarga, não conto (haha).

Jim Anotsu é talentoso e – por mais que Annabel e Sarah não seja perfeito – espero para ver outros trabalhos, mais maduros, dele. Isso se a faculdade de Letras não ferrar com a cabeça do moleque, claro. Hehe.

*

World War Z, Max Brooks, é algo que devia ser lido por todos vocês. É uma compilação de depoimentos de sobreviventes do apocalipse zumbi.

De cara, já ficamos sabendo que a infestação zumbi foi uma catástrofe global, mas está relativamente controlada. Através dos testemunhos o autor constrói um belo panorama do Dia Z, desde os primeiros ataques, passando pela disseminação mundial da epidemia e até a sua contenção. O livro é ótimo e o autor consegue criar uma sequência bastante verossímil de eventos e reações do que realmente VAI ACONTECER QUANDO OS ZUMBIS ATACAREM. É bom a gente ficar esperto.

Alguns depoimentos se destacam. O da K-9 Corps (os cães treinados para invadir as áreas dominadas por zumbis) é mais touching do que uns dez Marley e Eu. O depoimento falando sobre os castelos medievais usados como refúgio contra as hordas mortas-vivas é sensacional – me fez lembrar da cidadela de Sighişoara, que eu e a Gorda visitamos na Romênia. Fato que dava pra se proteger dos zumbis na moral lá. Ao mesmo tempo, tem uns depoimentos bem mais fracos. O que se passa no Brasil é divertido, embora a pesquisa do autor não tenha ido muito além de ter assistido Cidade de Deus (o que sucks a lot, mas não tira o mérito do livro).

*

Persuasion, Jane Austen. Austen é aquele negócio. É tipo um velho amigo, daqueles que você passa anos sem encontrar, mas quando esbarra com ele no boteco sabe exatamente o que esperar. E pensa “putz, por que diabos fiquei tanto tempo sem ver esse mané?”. Austen é sempre mais ou menos a mesma coisa, mas é foda anyway. Estou mantendo o ritmo de ler um Austen por ano. Mansfield Park é o próximo da lista.

*

Dreamsongs, George R. R. Martin. Na verdade não terminei de ler o calhamaço ainda, queria falar especificamente de um conto, o A song for Lya. Infelizmente não tem como entregar a fodice do conto sem esplanar spoilers do plot. Basicamente, dois investigadores com poderes psíquicos chegam a um planeta para descobrir a verdade por trás de um culto religioso esdrúxulo, baseado em uma criatura-fungo bizarra que só é encontrada naquele planeta. O mais foda no conto é o intertexto com o poema “Dover Beach”, de Mathew Arnold. As questões religiosas/metafísicas/espirituais do poeta vitoriano são perfeitas para ilustrar o estranhamento dos dois telepatas com o culto à criatura. Uma boa mensagem in your face pra quem acha que os escritores de ficção científica não precisam ler os textos canônicos. Até agora é sem dúvida o ponto alto da antologia do Martin.

*

Tenho algumas novidades pra postar por aqui e postarei-as em breve, quando der na telha. Bjundas!

One life furnished in trash by Image Comics

abril 12, 2010

Essse post (e vocês provavelmente viram pelo título) é baseado no conto do Neil Gaiman One life furnished in early Moorcok. O Fraga contribuiu com o insight via MSN (vocês iam se surpreender com a porcentagem ínfima de ideias que eu efetivamente tenho. Eu roubo coisas dos outros).

Isso vai ser uma mistura de relato, essay, memoir. Sei lá. Your call.

Aos onze anos eu era um nerd promissor. Sério, aquele moleque freak que os adultos achavam que era superdotado (HAHA, quanta ingenuidade), só porque havia lido uma porrada de livros sem desenhinhos. Senhor dos anéis, Fundação, Campo de batalha Terra, Brumas de Avalon. Eu juro que estava trilhando um caminho promissor – sério, nesse ritmo estaria lendo Ulisses aos 18.

(Tá, tô zoando, né? Mas captou o espírito?)

Eu já era viciado em HQs. Mas era um lance saudável, saca? Tipo só beber no fim de semana. Lia X-Men do Chris Claremont, o Conan do Roy Thomas, Vingadores da Costa Oeste do Bryne, Hulk do Peter David. Entre outros, vários outros. Mas ainda saudável.

Um belo dia, veio a Image Comics. Eu e meus amigos nerdizinhos ficamos insanos com aquilo. A gente já lia Marvel e DC há anos e de repente surgia todo um novo fucking universo de heróis. E o mais importante: era A MESMA MERDA, MAS DIFERENTE.

E sabe por que era diferente? A gente podia acompanhar desde o começo. Eu sei que isso parece meio estúpido agora, hoje em dia existem inúmeras editoras independentes com seus próprios universos e mesmo a Marvel e a DC têm trocentos universos caça-níqueis (na época eu acompanhava o Universo 2099 da Marvel, no máximo). Algumas séries da Image lançaram até edições número ZERO, não dava pra ficar mais “íntimo” de uma série do que isso. Era promissor. SÉRIO, EU JURO QUE NA ÉPOCA ERA.

Eu tenho todos os primeiros números – em inglês – de WildC.A.T.s, Cyberforce, Condename Strikeforce, Stormwatch, Wetworks. TODAS ESSAS MERDAS.

Então, na época que deveria estar adquirindo uma bagagem mais ampla de leitura, eu estava lá amarradão acompanhando cópias genéricas da Psylocke se engalfinhando com cópias genéricas do Wolverine. E achando tudo aquilo SENSACIONAL. Culpa de todo aquele exagero narrativo – tudo pasteurizado, pra assimilação fácil e cômoda. Um bando de ideias já esgotadas pelas editoras tradicionais sendo re-esgotadas por uma editora que posava de revolucionária. E o máximo de revolucionário eram as capas laminadas e mulheres seminuas (ou nuas – desde que os mamilos não aparecessem, tava valendo).

(Quando eu digo que não é pra levar minhas opiniões a sério, o que me vem à cabeça são os caixotes de revistas da Image enfiados no armário. Um dia vou jogar essa merda fora, eu juro)

E isso fez maravilhas pelo meu senso crítico. Hoje em dia eu desprezo toda aquela porcaria (exceção óbvia para os Wildcats do Alan Moore e o Stormwatch do Warren Ellis), mas admito que um dia achei aquilo tudo a coisa mais foda do universo. Provavelmente foi por culpa da Image que eu enfiei na cabeça que queria desenhar quadrinhos e acabei em uma faculdade de Desenho Industrial (em outras palavras, o meu maior FAIL em termos de vida, you know).

Mas sem ressentimentos.

Quando aquela febre passou e eu voltei, aos poucos, a ler literatura, as coisas mudaram. Estava mais malandro e mais exigente. Desdenhava as novelzinhas de Dragonlance que teria adorado alguns anos antes. E logo comecei a ler Wheel of Time e minha vida acabou (mas isso já é outra história).

Adoro encontrar culpados. Depois do RPG, foi a Image que arruinou minha vida. Talvez eu estivesse lendo Pynchon aos 18 anos se não tivesse começado a ler Cyberforce aos 15. É A VIDA.

(Olha o exagero de novo, mas vocês captaram. Vocês devem ter passado por esse “processo” de alguma maneira similar, a Image é o meu bode expiatório pessoal.)

E sabe o que é pior? Toda vez que tentam alguma reformulação caça níquel do universo Image (da Wildstorm, especialmente), eu estou lá. Vou ler pra checar o que fizeram.

Sim, sou uma puta imunda. YAY!

*

Não sei se era exatamente isso que o Fraga tinha em mente quando proferiu a máxima “A Image arruinou nossas vidas” no MSN. Mas se não foi (vai ver ele foi estuprado por um negão parecido com o Maul dos Wildcats), ele que escreva um post sobre o assunto.

*

A ideia é voltar a atualizar esse blog. Vou postar algumas resenhas de coisas que li mais ou menos recentemente (a saber: World war Z, Dreamsongs, The brief and wondrous life of Oscar Wao, Dreaming in Cuban, Persuasion, Annabel & Sarah, etc) e continuar roubando ideias dos outros no MSN para posts caôs como esse.

Faça como o Neil Gaiman…

setembro 14, 2009

…e tenha um Nerdquest em sua biblioteca!

WTF?!

Calma. Vocês se lembram que eu dei um Nerdquest pro Neil Gaiman na FLIP 2008, né?

Tá vendo a pilha de livros desarrumada aí embaixo? Tcharam! (Na pilha do meio, o segundo livreto). Eu não sou tão sinistro no photoshop, garanto a autenticidade. Inclusive, aconselho a clicar no link pras fotos da biblioteca particular leviatânesca do Neil Gaiman, que ele disponibilizou pro Shellfari, e ver por si só. Por sua própria conta e risco.

E logo embaixo tem um exemplar de As guerreiras de Gaia. A menina que entregou o livro pra ele tava bem na minha frente na fila de autógrafos. Hehe.

O Nerdquest está em cima porque o Neil Gaiman está planejando ler antes, naturalmente.

Steampunkrockhardcore

setembro 4, 2009

Ah, a grande surpresa. Este blog está VIVO!, já diria Dr. Frankenstein. Na verdade, sempre esteve, culpa minha que por um bom tempo estive ocupado demais e – que novidade – sem saco de atualizar. Descobri que qualquer coisa que eu tenho a dizer não vale lá muito mais desenvolvimento do que os 140 caracteres do twitter.

Rá, tô zoando. Era só pra colocar um link pro meu twitter no post.

Mas, em tempo, reativo o blog para publicar a prometida resenha da coletânea Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, da editora Tarja, que eu ganhei na comunidade de Escritores de Fantasia do Orkut e havia jurado pela minha alma imortal que haveria de resenhar.


Primeiro, amiguinhos, pra quem não sabe o que é Steampunk, não serei eu (praticamente um leigo no assunto) a explicar, portanto deixo o fardo para a Ana e o cuidadoso post que ela fez sobre o assunto.

O livro já surpreende pela qualidade gráfica. Capa bonita, vernizão, diagramação e encadernação boa. (Se deu mal nessa, ein Tibor? Ainda cato os fascículos do meu Fome quando quero emprestar pra alguém). E o conteúdo reúne autores com algum nome no “meio” e alguns novatos. Pra mim, que não sou lá nenhum baluarte de presença atuante no fandom, todos são novatos ou conhecidos “de nome”.

Antes de resenhar os contos em si, indico esta resenha publicada no blog Cidade Phantástica. Primeiro, porque é bem detalhada. Segundo, porque o resenhista usa a palavra “opúsculo”. Qualquer pessoa que tem um vocabulário tão vasto deve saber do que está falando. Portanto, ninguém precisa me levar a sério. (Ou não, your call)

O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli. Divertida e com o ritmo bem veloz, a narrativa abre o livro de maneira competente, familiarizando o leitor com a atmosfera steampunk, geringonças criativas e ambientação. Não sou muito fã de teorias de conspiração (na minha humilde opinião, sempre acaba soando como um supertrunfo, que o escritor pode tacar quando quiser, pra juntar as pontas soltas da narrativa), e é mais ou menos o caso aqui. Mas só não gostei disso, de resto é uma boa abertura.

Uma Breve História da Maquinidade, Fábio Fernandes. Excelente conto sobre o que Viktor Frankenstein poderia ter feito da vida se não fosse um viadinho emo. Bastante inteligente e bem escrito, com ótimas citações históricas e à obra de Shelley. Um dos meus preferidos e uma agradável surpresa logo na segunda narrativa da coletânea.

A Flor do Estrume, Antônio Luiz M. C. Costa. Muito legal a idéia de pegar personagens machadianos (Brás Cubas e Quincas Borba) e jogar eles em uma narrativa de história alternativa. Destaque para as referências à obra machadiana, com ênfase no Memórias póstumas – especialmente a ótima tirada final. Talvez os menos familiarizados com o Machadão não se divirtam tanto, mas, de qualquer maneira, é parte da brincadeira correr esse risco quando se faz uma paródia bem feita. Gostei.

A Música das Esferas, Alexandre Lancaster. Um garoto prodígio conduzindo (por conta própria) a investigação sobre a morte de um cientista. A história dá muitas voltas e o desfecho é previsível. Parece um episódio arrastado de Fringe. O autor usa muitos diálogos, para tentar manter o interesse, mas os diálogos não são interessantes. Não me empolgou.

O Plano de Robida: Um Voyage Extraordinaire, Roberto de Sousa Causo. Como narrativa, é uma ótima descrição de cenário. E um cenário razoavelmente interessante, devo dizer. Fiquei com a impressão de que o plot só estava servindo ao propósito de introduzir a maior quantidade de conceitos possíveis do cenário bolado pelo autor. Exemplo disso é que conto termina como se fosse a introdução de uma franquia. Pra mim, como narrativa isolada, não funcionou.

Mas o que mais me admirou mesmo foi que ao longo das 30 e algo páginas do conto o autor se conteve e conseguiu não fazer nenhuma piada infame sobre o queixo do Santos Dumont. Eu nunca conseguiria tal feito. Meus parabéns.

(E graças a esse conto descobri os trabalhos fodásticos do artista Albert Robida, vale a pena clicar- http://en.wikipedia.org/wiki/Albert_Robida )

O Dobrão de Prata, Claudio Villa. Um conto lovecraftiano default. Bem escrito, o autor mantém o suspense até o final, com competência. Mas é um conto lovecraftiano muito default, não dá pra deixar de comentar que fica um deja vu meio indigesto. E substituindo “vapores” por “barcos” deixaria de ser steampunk. O conto ainda tem uma frase num espanhol sofrível. Ei, revisor, até o Google Translator teria avisado que se escreve hijos, não hirros.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, Jacques Barcia. Meu conto preferido do livro, junto com o do Fábio Fernandes. Um romance entre um autômato e uma golem em meio ao levante da oprimida classe operária. Se a coletânea fosse uma suruba, os demais contos fariam papai-e-mamãe-vanilla (com um eventual frango assado) enquanto esse estaria em cima da mesa vestido de freira e chicoteando um anão.
Bom, eu não gastaria o meu repertório de analogias bizarras se não tivesse gostado. hehe

Cidade Phantástica, Romeu Martins. Conto cheio de referências históricas e à obra de Júlio Verne.

Aliás, admito que eu não conheço PN do Verne, li quando era moleque e achei a coisa mais foda do mundo. Mas, ao mesmo tempo, também achava o desenho Cavaleiros da Luz Mágica a coisa mais foda do mundo. Sabe-se lá quais eram os meus sofisticados critérios (e será que eles mudaram tanto?). hehe.

Bom, Cidade Phantástica é um conto de ação, que já abre num ritmo rápido. Infelizmente, a narrativa fica atravancada pelos muitos discursos explicando motivações dos personagens e as descrições do cenário. Sem contar que o esquema vilão-explicando-plano-maligno-para-mocinho não é exatamente a última palavra em termos de condução de narrativa. Talvez eu estivesse bêbado ou com sono quando li, vai saber, mas não me empolgou.

Por um fio, Flávio Medeiros. Interessante e claustrofóbico conto, passado a bordo de um submarino a vapor avariado, sendo perseguido por um dirigível inimigo. O mote principal, de mostrar como era travada uma guerra quando oponentes honrados tinham os ideais cavalheirescos vitorianos em primeiro lugar, é muito boa e fica bem resolvida, embora eu ache que o conto canse um pouco no meio. No mais, interessante.

É isso aí. No geral, o saldo é positivo e vale a pena um confere. Você pode comprar o livro no site da Tarja, clicando aqui.

Deixo os links para outras duas resenhas sobre o livro (confiar só na minha opinião nunca é aconselhável):

Resenha 1 (com opúsculo)
Resenha 2 (sem opúsculo)

Descobri que Steampunk, ao que parece, é o novo hype no metiê da Ficção Científica. Vou escrever um conto Steampunk onde o Santos Dumont pilota um robô gigante que se transforma no 14 Bis e defende o litoral brasileiro dos ataques de monstros radioativos japoneses. O robô não terá queixo, naturalmente.

*

Lembrando aos amiguinhos e amiguinhas que eu ainda tenho uma razoável quantidade de Nerdquests aqui em casa (mais do que eu gostaria, mas menos do que esperava), e se alguém quiser me fazer um agrado não-sexual pode comprar o livro, escrevendo para o email pedrogmvieira@gmail.com.

*

Eu sou um verme, deveria criar vergonha na cara e migrar esse blog pro wordpress.

Aventuras Fantásticas FTW!

abril 26, 2009

Sensacional! Parece que uma editora pequena resolveu resgatar do limbo a coleção de livros-jogos Aventuras Fantásticas. A editora é a Jambô, especializada em RPG.

E eu pensava que algo assim nunca aconteceria. Soterrado pelo meu próprio pessimismo, podia apostar que as novas gerações de nerdizinhos eram bem mais suscetíveis aos atrativos coloridos e barulhentos de uma raid no Mundo de Warcraft do que a explorar a Montanha de Fogo, munidos de lápis e dados. Aliás, só o tempo dirá se esse relançamento converterá novos fiéis ou apenas trará orgasmos nerds aos fãs nostálgicos.

Mas se você – infiel imundo – não sabe o que eram os livros-jogos Aventuras Fantásticas, eu vou tentar explicar do modo mais não-didático possível, ou seja, a partir das minhas parciais recordações de pré-adolescente virgem.

Em tempos ancestrais, quando o RPG era tão desconhecido que não chegava nem a ser coisa do demônio e A Espada Selvagem de Conan era o máximo de publicação especializada em RPG que o mercado “oferecia”, as Aventuras Fantásticas reinavam supremas. O material de RPG em português era quase inexistente e eu passava maus bocados me digladiando com os suplementos de GURPS em inglês. Sem contar as traduções do Senhor dos Anéis e Dragonlance em português de Purtugal. Ah, quanta nostalgia.

Mas, naquela época, se você queria ter uma experiência rpgística e não tinha um grupo a sua disposição, não iria perder seu precioso tempo com WOW, esse vício sebento. Você iria comprar uma Aventura Fantástica em qualquer livraria.

O meu ritual era quase o mesmo de uma sessão de RPG. Eu me sentava à mesa, preparando cuidadosamente o material de jogo: um lápis, borracha, a Folha de Aventuras do meu personagem e dois pares de dados (um para mim e outro para os inimigos, claro – acha que eu ia dar esse mole e usar os meus dados pros monstros?). Pegava um pacote de biscoitos recheados e uma garrafa de Coca Cola (o então equivalente a cerveja e amendoim) e mandava ver. Não descansava até chegar ao famigerado parágrafo 400.

E roubava muito. Óbvio, eu queria me convencer de que não estava roubando, tinha escrúpulos. Mas porra – não tinha ninguém olhando! Era eu quem decidia quando um lance de dados espelhava, e isso era muito poder para um pré-adolescentezinho misantropo metido a besta.

Sem contar que naquela época eu não conhecia o conceito de sincretismo de regras de RPG, algo que hoje faria sem pudor. Ia sair incorporando modificadores de hit location e multiplicar qualquer dano por 3 – “porra, acertei, dano de perfuração nos órgãos vitais!”. E também só começo a fazer testes pra ver se não morro quando a minha Energia chegar ao negativo. E por que não ter Sorte negativa? Ou usar saving throws sempre que for necessário? Sei lá, as regras tinham que ser mais flexíveis. Eu quero usar o meu herói com super-força de Encontro marcado com o M.E.D.O. no Calabouço da morte. Não posso? QUEM VAI ME IMPEDIR? O Steve Jackson vai vir me dar porrada e me chamar de putinha suja?

Ok, ok, just being a bitch.

Voltando ao assunto inicial, estou radiante de felicidade porque finalmente poderei recomprar alguns dos livros que emprestei e, pobres coitados, nunca encontraram o caminho de volta pra casa (a saber: O feiticeiro da montanha de fogo, Encontro marcado com o M.E.D.O. e Prova dos campões).

Ah, e tem outra coisa – renovarei os primeiros votos de substancial importância que fiz em toda minha vida: zerar A nave espacial Traveller. Tenho o fantasma desse fracasso me atormentando desde aquela fatídica tarde de 1993 e não quero isso pro resto da minha vida. Perdi a virgindade, passei no vestibular, me formei, vi o quarto tri do Mengão, passei no vestibular (de novo), publiquei meu primeiro livro, mas em nenhum momento qualquer conquista foi plena. Em nenhum momento pude celebrar algo sem que estivesse com isso pesando em minha consciência: Nave espacial Traveller.

Eu ainda vou zerar essa merda.

E lembrando que os primeiros jogos de RPG que eu mestrei (e que joguei) na vida foram do RPG – Aventuras Fantásticas, um livreto que vinha com duas aventuras bem básicas: dungeons safadas na acepção mais true do termo, com dragões e magos malignos. Antes de GURPS. Antes de AD&D. E que mais tarde foram expandidos com vários suplementos. Mestrei uma campanha de Gurps por alguns anos no mundo de Allansia (o mundo onde os livros-jogos de fantasia se passavam), da qual tomaram parte a Gorda, o Ary, o Café e muitos outros manés que não comiam ninguém (alguns ainda não comem, inclusive).

Pensando bem, se o meu pai quisesse processar alguém por eu não ter me tornado o atleta comedor de mulheres que ele sempre idealizou, está aí o culpado: Aventuras Fantásticas. RÁ!

Vou ali tatuar minha testa com um unicórnio branco dentro de um sol radiante, que é o repelente padrão de zumbis e necromantes, e assim terminar A Cidade dos Ladrões (fatão que o nível de breguice contava pra potencializar as tatuagens mágicas).

Bis dann!

P.S.- sem contar que no meu próprio livro (o Nerdquest, vocês sabem) tem citação a Aventuras Fantásticas e especialmente ao maldito Nave espacial Traveller.

P.S 2 – E em meu próximo livro (de contos, caso porventura venha a ser publicado) terá um conto-jogo sobre pegação na night.

(O Ary colaborou com esse post via msn. Ele também não zerou A nave espacial Traveller, mas conseguiu terminar meu conto-jogo sobre pegação na night. Não que ele seja bom nisso.)

Tolkien saiu do armário (?)

abril 22, 2009

Aproveitando a falta de assunto e os feriados insanos em dias alternados, escrevo mais um postizinho caô com comentários de livros. Porém, desta vez, longe de ser mais um bando de comentários aleatórios amontoados ao acaso, este será um post específico sobre fantasia e ficção cientifica nacional (sim, isso existe), com coisas que li recentemente e coisas que li há algum tempo.

Ah, vale lembrar que já comentei sobre um livro de FC nacional por aqui, alguns posts atrás, o A mão que cria, do Octávio Aragão. O próprio autor se amarrou tanto nos comentários que me confidenciou estar escrevendo um romance sobre as Lhamas Mutantes Ninjas Adolescentes do Dr. Moreau.*

O arqueiro e a feiticeira, da Helena Gomes, é o primeiro volume de uma série. Sempre tive curiosidade de ler, mas só resolvi arriscar depois que vi o livro vendendo em um sebo. Infelizmente, não consegui passar da primeira frase.

A primeira frase é “Tolkien entrou na caverna”.

TOLKIEN. ENTROU. NA CAVERNA.

Até que seria maneiro se o personagem principal fosse o Tolkien (estilo Riverworld). Mas não, é uma homenagem mesmo. Sério? Tão sutil que eu quase nem notei. No way, dude, não dá pra levar na boa. Quando eu, com 13 ou 14 anos, escrevia minhas primeiras histórias, baseadas em aventuras de RPG estilo matar-trucidar-dividir itens mágicos, o grupo de personagens sempre era algo como Tolkien, Wolverine, Renato Gaúcho e Darth Vader, eu me amarrava em homenagens. Mas, tipo, existem maneiras mais sutis de prestar homenagens, cara. Pelo que eu entendi, o personagem só aparece no prólogo. Eu retomei a leitura em um capítulo seguinte, mas, a cada página virada, a sombra de Tolkien pairava sobre a trama. E se da próxima vez Tolkien acompanhasse C. S. Lewis? E se eles fizessem uma tocaia pra tentar emboscar o Michael Moorcock? Medo.

(Na verdade, isso acaba de me dar idéia pra um conto surreal)

Brincadeiras à parte, eu li alguns capítulos e cansou rápido. Tem algo a ver com órfãos e ciganos. Prometo algum dia dar outra chance ao livro. Ou não.

Viagem a Trevaterra, do Luis Roberto Mee, de 1994, é um livro que vários proto-nerds leram. Da época em que O senhor dos anéis era encontrado naquela versão de capa preta portuguesa (a que eu tenho, btw), que Tanis era um semi-duende e a referência em filme de fantasia era Conan, o Bárbaro, e não a bicha do Orlando Bloom com suas madeixas de cocker spaniel.

De repente, dar de cara com um livro de fantasia de um autor nacional era quase como se tivessem clonado um tiranossauro. Eu li o livro mais de uma vez, mas o meu cérebro juvenil reteve pouco. A idéia de um mundo onde existe um reino sem noites e um reino sem dias é de uma ingenuidade sensacional. E, ainda mais adequado ao conceito de fodice na minha mente púbere rpgística era o envio de uma party de heróis para roubar as sementes que seriam usadas no “plantio” de noites.

Admito que tenho um baita medo de a Regra dos 15 anos se aplicar, mas lerei o livro novamente em algum momento. Até porque tenho a continuação (Crônica da grande guerra, de 1995), presenteado e assinado pelo próprio autor. Brrr.

(Sim, esse é um parentêsis inusitado. O autor é amigo de um amigo de infância do meu pai, coisa que eu fui descobrir há alguns poucos meses. Muito boa gente. O restante da sua saga de fantasia, que começou com o Trevaterra e tem cinco livros, está concluído, porém tristemente engavetado – uma vez que ninguém parece se interessar por editar, infelizmente)

Os sete, do Andre Vianco. Resolvi descobrir qual é a do cara e comprei logo o livro mais famoso dele em uma dessas promoções do submarino.

Quando você começa a falar do livro se explicando que só comprou porque estava em promoção é um mau sinal, não? Right. O pior é que eu sequer tenho argumentos para debater, porque não consegui transpor a barreira das 20 páginas (aliás, que já começam contando a história de vida mega-piegas de um dos protagonistas). Talvez seja a minha antipatia inata por histórias de vampiro, culpa das baboseiras que eu me forcei a ler da Anne Rice e da histeria Crepúscula. People, vampires suck. Zombies are the new shit. Prevejo que vai aparecer alguém, vindo com o mimimi clássico de que eu estou com invejinha. O que não deixa de ser verdade. Portanto, sintam-se à vontade.

Agora, a hora do jabá!!

Exageros à parte, só digo que é “hora do jabá” porque conheço os autores dos livros seguintes, graças à vida boêmia da internet. Mas como ninguém está me pagando pra falar bem, tenho total liberdade pra espinafrar geral até o cu fazer bico!

O que não é exatamente o caso.

Anacrônicas – Pequenos contos mágicos, Ana Cristina Rodrigues. Um livreto curto (talvez curto demais) com coisas bem interessantes e outras nem tanto, mas que não comprometem um saldo final positivo. Vamos aos detalhes.

Tanto o conto de abertura quanto o que encerra o livro (É tarde e Apocalipse now) são ótimos. No recheio, contos bem interessantes, com algumas belas imagens (Princesa de toda a dor, Como nos tornamos fogo, Baile das máscaras) e outros que não parecem “dizer ao que vieram” (O senhor do tempo, Feitiço sem nome, Lenda do deserto), pois – na minha humilde opinião – falta um pouco daquele “punch”, no sentido da famosa analogia do Cortázar (que eu não vou reproduzir aqui pra não correr o risco de parecer inteligente).

Ainda em alguns contos encontramos excelentes idéias que gritam, exclamam e suplicam por um desenvolvimento mais aprofundado, tipo A casa do escudo azul (em uma Terra pós-apocalíptica em reconstrução, um indiana jones de saias caça relíquias da cultura pop, tipo exemplares do Harry Potter ou do Nerdquest **), que poderia muito bem ser um conto maior ou mesmo uma série de contos. Anyway, como eu disse antes, o saldo é positivo e é uma empreitada louvável. Para mais info e comprar o livro: Blog da autora.

Fome, Tibor Moricz. Fome trata de uma terra pós-apocalíptica onde o bicho realmente pegou. A civilização ruiu e a vida animal foi extinta. Os poucos humanos que sobraram recorreram ao bom e velho canibalismo para sobreviver em um mundo envenenado. Muito foda, não? E o resultado final é bem legal. A única coisa que me incomodou ao longo do livro foi a insistência do autor em “perturbar” e de passar o clima de angústia e corrupção que permeia o cenário. Acaba meio repetitivo, como se cada conto apresentasse o cenário do zero, daí uma perda de fôlego considerável após a primeira sequencia de contos. Mas isso não tira o mérito do livro, que constrói muito bem um climão tenso, desembocando em um final apoteótico. O ponto positivo vai pra Tarja Editorial, por ser uma editora que está mergulhando de cabeça nesse dúbio terreno de publicar fantasia e sci-fi. E o ponto negativo também vai pra Tarja Editorial, pela encadernação xexelenta do livro. Se alguém me pedir emprestado, posso até separar os contos por fascículos ou selecionar só os que eu gostei. Bom, acesse o site da editora para mais info e comprar o livro!

É isso ai, putada. É bom saber que existe vida inteligente na fantasia e FC nacional. Ao contrário da literatura nerd, que só tem tosqueira.

Bjundas.

* Isso é mentira. Eu invento coisas.

** Isso é mentira também. Mas vocês já sabem que eu invento coisas.